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‘O cativeiro não vai acabar’


Por MAURO MORAIS

03/11/2015 às 07h00- Atualizada 03/11/2015 às 08h27

Dona Tiana:

Dona Tiana: “Falar em igualdade é tampar o sol com a peneira” (Leonardo Costa)

Ainda criança, Sebastiana via com frequência lágrimas escorrerem do rosto do pai. “Vi uma sinhá queimar a mão da minha tia. Ela estava fazendo melado e pingou na mão, e ela fez assim, ó (mostra, lambendo a mão). A sinhá estava na janela, olhou aquilo e veio. Mandou minha tia abrir a mão e despejou o melado fervente. Ela morreu por conta disso, porque caiu a carne da mão, queimada. Não pôs remédio, não. Minha tia foi para as matas, mas os dedos foram apodrecendo, mesmo com os unguentos dos pretos. Ela morreu com os dedos sequinhos. Assisti assim, ó, de perto”, recorda-se Sebastiana Geralda Ribeiro da Silva, a Sebastiana D’Oxossi, coordenadora do quilombo Carrapatos da Tabatinga, no município de Bom Despacho, região centro-oeste de Minas Gerais, a pouco mais de 150km da capital.

De passagem por Juiz de Fora, no último mês, para palestra na UFJF, dona Tiana conversou com a Tribuna, falou do seu povo e, perguntada sobre as marcas que as lágrimas lhe deixaram, não titubeou: “Ô meu filho, é muita dor aqui dentro. Mas a cada dia mais força eu tenho para lutar e não ver meu povo passar por isso.” Com 82 anos, sete filhos biológicos, outros sete “catados na rua”, 25 netos e 18 bisnetos, ela não se cansa de contar as histórias que formaram a pequena comunidade cujo nome faz referência ao barro branco que era amassado com os pés para a construção dos casebres. “Eles (os mais novos) precisam saber de onde a gente veio”, diz.

E saber do passado, segundo ela, é se armar para um presente que apenas dissimulou as torturas de outrora. “O sofrimento existe até hoje. De lado diferente, mas é a mesma coisa. Tem palavras que doem muito mais que um tiro. Tem certos tipos de humilhação que doem muito mais que uma facada. O racismo não vai acabar nunca. O cativeiro não vai acabar nunca. Isso é tapeação. O negro é que não pula de banda não, para ver. Se não faz isso, não acontece nada”, afirma a senhora de gestos firmes e riso solto, com uma resignação que se mistura a uma revolta sem fim. Como superar o cativeiro?, pergunto. “É só dar pescoção igual eu dou, dá coice igual eu dou, e pronto”, ri.

‘Grito e esperneio’

Sebastiana faz questão de dizer de onde veio: “Sou filha de José Domingo Ribeiro e Maria Imaculada Ribeiro. Meu bisavô foi Cândido Jorge da Fonseca. Minhas avó, Maria Cândida da Fonseca”, orgulha-se. Essa raiz, firmada em terra de refúgio de escravos, onde ainda é falada a “Língua do Negro da Costa”, ou gira de Tabatinga, dialeto afro-brasileiro, com influência do banto, é lugar de resistência, primordialmente. “Foi preciso ter fé, coragem e persistência para aguentar os sofrimentos, não revoltar e lutar sempre sem correr sangue”, diz dona Tiana, mulher que cresceu na aridez e hoje conhece a fertilidade.

“Cresci vendo o sofrimento de meu povo. Quando os macacos invadiram nossa área, meus antepassados fizeram um túnel debaixo do chão, e ficamos ali por quase um ano. Portanto, hoje fico duas, três semanas sem beber uma gota d’água, por que fomos criados sem ela. Um saía à noite da toca para pegar coco e dar agua para nós. Não podia sair direito, porque senão poderíamos ser mortos. Da minha família, só restaram meu pai e minha mãe. Todos os outros foram mortos”, resgata a pensadora de uma lucidez dolorosa de ouvir. “A única raça que veio para enriquecer esse Brasilzão foram os negros. Uns vieram para roubar, outros, para buscar ouro, enquanto o negro veio para trabalhar sem o direito de livre viver, sem ter o que comer, sem ter salário, sempre dando riqueza para esse país.”

Para Sebastiana, é cruel ver que os mesmos que tanto trabalharam, “até hoje eles não têm jeito de viver com dignidade nesse Brasil”. Quanto a ela? “Vivo, porque grito e esperneio”, diz. E vive, também, porque tem na fé um instrumento de guerrilha e esperança. “A fé é que dá força para nós vivermos, produzirmos e adquirirmos coisas boas. O santo traz, mas também temos que correr atrás deles. Não somos católicos apostólicos romanos. Romano é uma palavra bonita, não é?! Todo mundo quer ser. Mas nós somos católicos apostólicos praticantes. Porque o negro não podia ir na igreja do branco, então, quem nos ensinou a rezar foi o Divino Espírito Santo. Somos espíritas de nascença. E não é macumbaria, feitiçaria, nada disso. Escrevo música, nunca estudei e faço letra e samba enredo, que vem lá de cima para mim.”

‘Hoje os brancos nos ouvem’

Os tempos de hoje são de enfrentamentos. É preciso ter braço forte e encarar a mudança que desejam, conta dona Tiana. “Somos um quilombo urbano, não somos de capinar, brigar por causa de terra. Estamos mais chiquezinhos, um cadinho. Outro dia um fazendeiro me ofereceu: ‘Você quer três alqueires de terra?’ Não. Para quê? Para plantar para vocês comerem? Não. Meus negros vão trabalhar em banco, vão estudar. Não vão lavar bunda do filho de vocês”, brada a líder, sonhando com a formalização de seu Centro Cultural Afro-brasileiro, no espaço que pouco a pouco conseguiu arregimentar mobiliários urbanos e educação de qualidade, com a formação de 150 estudantes por ano.

A paisagem menos dura é fruto, de acordo com Sebastiana, de uma abertura, ainda que tardia: “A vida no quilombo melhorou, porque hoje os brancos estão parando para ouvir nosso lamento. Isso que estou fazendo, de falar nas universidades, tinha que ter acontecido no princípio do mundo, para o negro ser mais respeitado.”

Mas ainda falta, para ela, que a própria raça se consolide enquanto voz uníssona. “Tem negro que, se for chamado de negro, se enfia debaixo do rabo de uma vaca ou de um tatu. Eu não. Se me chamar de nega, zoiuda, aí é que fico mais saliente, aí é que vou pra cima pra valer. Estou aí, com essa idade toda e consegui, em nosso quilombo, estudo para os nossos filhos. E meus meninos estão formando profissionais, porque, para o negro, até para achar emprego é difícil. Eles põem uma fila de branquinho e três ou quatro negros, e catam todos os brancos, e os negros ficam esperando. Falo isso porque aconteceu comigo.”

No mês em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, no próximo dia 20, quando completam-se 320 anos da morte de Zumbi dos Palmares, Sebastiana Geralda Ribeiro da Silva não se inibe de dizer que “a igualdade racial não vai ter nunca na vida”. Lamenta, mas está certa de que a realidade deve estar clara nas vistas e nas memórias, como a cena da tia morrendo. “A não ser que morram os pretos tudo ou os brancos tudo, nunca haverá. Falar em igualdade é tampar o sol com a peneira.”