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Outras Ideias com Sérgio Luiz Teixeira


Por MAURO MORAIS

01/11/2015 às 07h00

Teixeira está há 44 anos no comércio do Centro (Marcelo Ribeiro)
Teixeira está há 44 anos no comércio do Centro (Marcelo Ribeiro)

Ele ainda era pequeno, mas, para o pai, já era tempo de pegar no batente. A família de cinco filhos carecia de outras rendas que não a do patriarca vigilante. “Tinha que trabalhar mesmo para ajudar em casa. Ainda assim a vida era difícil. Por muitas vezes, almoçávamos, no domingo, mingau de fubá”, lembra-se Sérgio Luiz Teixeira, 57 anos. Aos 13, em julho de 1972, quando mal conhecia a cidade e o valor do dinheiro, o garoto deu as mãos para o pai e partiu do Bairro Fábrica para o Centro. Trilhou um caminho que até hoje, 44 anos depois, continua a fazer. “Ele me trouxe, de mãozinha dada e calças curtas. Não sabia varrer uma loja, muito menos passar pano. Quando acabava o expediente, ele me levava de volta para a casa, porque eu não sabia onde eram as ruas. Comecei como entregador, office-boy, limpando, varrendo e aprendendo”, diz.

O trabalho na loja de número 388 da Rua Marechal Deodoro foi indicação de um amigo do pai, que produzia bolsas e vendia para o empreendimento da família Delmonte, uma das mais experientes no comércio juiz-forano. Passados seis anos, Sérgio já ocupava o cargo de vendedor de sapatos, bolsas e outros acessórios. Da Delmonte 388, transferiu-se para a DelCenter, onde foi estoquista e depois gerente da seção de brinquedos. Em seguida, trabalhou na loja de calçados do grupo na Getúlio Vargas, ao lado do antigo Banco de Crédito Real (hoje museu), até que, em 1989, fixou-se no Grupo Arpel, já no setor administrativo. “Vender nunca foi meu forte. Vendia bastante, inclusive brinquedos, mas gosto mais de correr, mexer, fazer. Sou desassossegado”, ri Teixeira, como hoje é conhecido o homem de olhos claros e cabelos grisalhos, visivelmente proativo, de gestos e falas firmes e rápidas.

Do bonde ao caos

Quando Teixeira chegou ao comércio de Juiz de Fora, não desembarcou de um bonde, mas bem que poderia, não fosse o veículo não se estender até sua casa. Hoje funcionário mais antigo dos empreendimentos erguidos pela família Delmonte, ele viu os negócios do grupo tomarem corpo. “Vi meu patrão se casar, a esposa engravidar, a filha crescer, se casar e ter um filho. Vi a família crescer e ganhar força no comércio. Sempre me senti na obrigação de ajudar a dar essa força”, diz. Viu, também, a cidade ter sua paisagem bastante modificada. “O bonde passava aqui na porta, mas eu vinha de ônibus e parava na parada única, que era no Bernardo Mascarenhas. A Halfeld tinha trânsito, calçadas, o carnaval também era visto daqui. Existia um café aqui do lado, o Astória. Hoje está muito diferente”, comenta, na varanda do primeiro andar do Prédio Santa Helena, no número 2.231 da Rio Branco, onde funciona setores administrativos da Arpel.

Família dentro da família

Assim como ele e a cidade, sua casa também mudou ao longo dos anos. E o trabalho sempre esteve envolvido com esse curso. “Era menino e, quando abriu uma oportunidade de emprego no crediário, fui até a casa da Márcia chamá-la para ocupar a vaga. Ela morava no Bairro de Lourdes, e eu, como não sabia onde era, peguei o ônibus e desci no início do bairro para procurar a casa. Dali para cá, buscava lanche para ela, conversava, até que começamos a namorar e nos casamos”, conta o marido da tesoureira da Delmonte 539, pai de um filho de 31 anos. Teixeira constituiu sua família no seio de outra família, que diz ter acompanhado de perto. “É muito interessante ter o contato direto com o patrão, encontrá-lo. No meu caso, tenho até uma amizade grande, ainda que haja um grande respeito. É muito bom trabalhar numa empresa familiar, porque é possível conhecer a chefia, sabendo, num ‘Bom dia!’, como o patrão está se sentindo. Fora que tudo é muito transparente”, pontua.

Bodas de ouro de trabalho

Entre serviços bancários, entregas e outros afazeres do cotidiano da empresa – “Todo os tipos de funções que me são confiadas, desempenho”, orgulha-se – Teixeira foi vendo o Centro ser potência no comércio da cidade e também o contrário nos últimos anos. “Vi muita gente começar e muitos fecharem as portas. Lembro-me que, na Marechal, tinha as Lojas Pernambucanas, muitos supermercados, diversas lojas de tecidos. Conheci muita gente aqui”, conta ele, que há seis anos aposentou-se, mas optou por continuar no mesmo lugar. “Quero chegar até os 50 anos de trabalho no ramo. Foi meu primeiro e único emprego, e espero que seja o último”, brinca o flamenguista e católico não praticante, hoje nos bastidores do comércio onde fez a maior parte de sua existência. “Esse encontro foi muito importante para minha vida.”