A morte de Deus
A liturgia da Igreja Católica aponta, explicitamente, neste domingo, o início da caminhada de Jesus para a morte. A figura do Messias montado em um simples burrinho, e não em um deslumbrante cavalo real, é por demais incômoda para as autoridades daquele tempo, pois revela um outro paradigma para o desempenho da realeza: o rei é aquele que serve, que se torna pequeno, que se mostra como o menor de todos.
Na verdade, este momento apenas confirma a opção de toda a vida de Jesus: instaurar, segundo a vontade do Pai, na história da humanidade, o Reino de Deus, um reinado que se apresenta de modo diverso dos reinados deste mundo.
No início de seu ministério, Ele anuncia, solenemente, na sinagoga, que foi ungido pelo Espírito para fazer esse reino acontecer, evangelizando os pobres, curando os de coração ferido, libertando os presos, recuperando a visão dos que estavam cegos, restituindo a liberdade aos oprimidos. Diante dessas incisivas palavras, os que se encontravam ali se enfurecem, e o desejo de matá-Lo se configura entre eles.
Nesta semana da rememoração da paixão e morte de Cristo somos chamados a refletir especialmente sobre duas questões, aparentemente contraditórias: Jesus é assassinado brutalmente por seus contemporâneos, que não o compreendem, mas que, sobretudo, não o aceitam, em função de suas opções. Por outro lado, é esse mesmo Jesus que oferece livremente Sua vida por amor a Deus e à humanidade que O condena.
A oferta da vida, uma atitude em favor do amor que passa pelo perdão, é maior do que o mal que está presente na decisão que O leva à morte. Jesus, com o gesto de desapegar-Se de Sua vida em favor da humanidade, recupera-a para si e para todos, pois Deus não O deixa na solidão da morte, mas O ressuscita para a vida em plenitude.
A Semana Santa só existe porque, assim como na encarnação, Jesus Se esvazia e Se entrega em favor de toda a humanidade, vencendo, com esse último gesto de amor e perdão, a morte que Lhe fora impingida.
A cruz, por si mesma, não tem sentido. Ela é sinal de castigo, de sofrimento, de dor, de abandono, de crueldade, de maldição e de morte, mas Jesus a ressignificou, pois fez dela o lugar do amor que se imola em benefício de tantos outros, que nem mesmo merecem tal sacrifício. Esse amor gratuito é revelador do verdadeiro rosto do nosso Deus. Não mais um Deus vingativo, que cobra de quem não tem, que quer colher onde não plantou, mas um Deus que vence o círculo vicioso do ódio, da violência e da morte com o perdão, a bondade e o amor desmedidos.
Muitos de nós, cristãos, modernos ou hipermodernos, embalados pelas luzes ofuscantes do sucesso e do poder a serem conquistados a qualquer preço, também não aceitamos Jesus na Sua integralidade. Muitas vezes, nós O maquiamos para torná-Lo palatável e para que Ele seja apresentado como um Deus segundo os nossos desejos ou interesses. Como os antigos, matamos os profetas e preferimos os sacrifícios e holocaustos, deixando em segundo plano a prática do direito e da justiça.
Que este tempo de celebração da entrada de Jesus em Jerusalém e de Sua paixão, morte e ressurreição possa ser, para todos nós, um tempo de humilde conversão e de reconciliação entre nós mesmos, com Deus e com nossos irmãos mais necessitados, para que a Paz seja restaurada em cada coração e na vida sofrida da humanidade enferma.










