Pulso


Por NATHÁLIA MENEGHINE Professora e psicóloga

30/08/2011 às 07h00

Os jornais do último dia 23 trouxeram duas notícias que me deixaram horrorizada.

A primeira notícia é sobre um grupo de crianças que assaltou um motel, destruiu as instalações do Conselho Tutelar e ainda agrediu os policiais que conduziam o grupo. Segundo a reportagem, foram cerca de dez horas de descontrole e violência. A segunda denunciava um hospital que recusou atendimento a uma jovem grávida de gêmeos. O parto foi feito dentro da ambulância do Corpo de Bombeiros (os únicos que a socorreram), e os bebês morreram.

Para mim, as duas notícias desembocaram num mesmo espanto: estamos matando nossas crianças! E o que esperar de uma nação que mata suas próprias crianças?

Sobre o primeiro caso, fiquei espantada também em ouvir de diversos envolvidos na história: não se pode fazer nada porque são crianças, e o Estatuto da Criança e do Adolescente não determina o que fazer…. Não é verdade! Para as crianças em situação de risco (e não há dúvida de que essas estão), o ECA preconiza que sejam aplicadas as medidas protetivas, que, vale destacar, incluem tratamento psicológico. Ademais, justamente por se tratar de crianças, temos que apostar que ainda há muito que fazer.

Um repórter disse que os próprios policiais desaconselharam a reportagem a entrar na rua onde essas crianças moram, tamanho o risco e a violência do lugar, dominado pelos traficantes. Bem, se o que oferecemos a elas é esse lugar mergulhado na criminalidade, o que podemos esperar que elas reproduzam?

Onde estão os outros lugares no social que poderiam servir de referência a elas? Escola, família….? Não há. Estão desalojadas a tal ponto que tentaram se abrigar no lugar mais próximo a elas: no crime, na violência e na droga – um conselheiro tutelar disse que as crianças estavam todas visivelmente drogadas.

No caso da morte dos bebês, a explicação do hospital é puramente burocrática. Mas como é possível colocarem o funcionamento burocrático acima da vida das pessoas? Vale mais o protocolo que o sujeito? Não deram lugar a esses bebês no hospital: eles morreram. Também não deram lugar a esse grupo de crianças, nem no social nem no afeto: elas estão morrendo.

A criança é quem traz ao mundo a possibilidade do novo, do inesperado. Renova as esperanças, sustenta novas apostas. Provoca uma nova ordem social. E é essa possibilidade de revolução que se atualiza quando uma criança pode nascer e viver. Justamente por isso não podemos nos acostumar com notícias como essas nem aceitar a produção da morte de nossas crianças pela nossa ação ou pela omissão.

Eu não posso. Meu pulso ainda pulsa! Indignação. Indigna nação que mata as suas crianças!