O pacto da verdade
Falar a verdade, ou em verdade, é a moda politicamente correta. A presidente Dilma criou a Comissão da Verdade para apurar crimes do Estado desde a ditadura Vargas, principalmente, pela ditadura militar. O pessoal da CPMI do Cachoeira diz que vai apurar a verdade, doa a quem doer. Agora, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes resolve falar a verdade e diz ter sido pressionado, quase chantageado, por Lula, no escritório do ex-ministro Nelson Jobim, para ajudar a adiar o julgamento do mensalão. Garantindo que fala a verdade, Jobim assegura que essa conversa não aconteceu.
Aí ficamos nós com a certeza de que a verdade é como a lua. Tem dois lados, um visível e outro invisível. No Brasil, a lua da verdade está na fase nova. A gente enxerga apenas a sombra dela. Uma hora veremos o seu lado luminoso, pois o outro, ninguém quer descobrir e enxergar. Lamentável isto, pois o país anda mesmo muito necessitado de descobrir e ouvir verdades. Outro dia, a presidente Dilma bem que tentou, contando aos prefeitos que não há qualquer possibilidade de que eles recebam, por agora, recursos do petróleo, nos casos dos contratos em vigor. Melhor será, disse, que eles lutem pelos royalties futuros. Tomou uma vaia pela verdade que disse, muito embora os prefeitos, ao que parece, tenham vaiado outra verdade que ninguém aborda: a de que estados e municípios estão quebrados, enquanto a União, que concentra todos os recursos, esteja jogando dinheiro no ralo por prioridades mal definidas.
Apesar do insucesso da primeira tentativa, bem que a presidente Dilma poderia continuar sua mal iniciada cruzada da verdade. E poderia começar esclarecendo por qual razão não se consegue realizar a reforma tributária, reclamada como indispensável. Dizem que ela não acontece por não ser de interesse, nem da União, que, com certeza, perderá recursos, nem de governadores, que têm medo de ver suas receitas diminuírem ainda mais. Quem deseja mesmo, falam alguns, são os prefeitos, que, por não terem mais receita a perder, querem pelo menos ganhar um pouco mais.
A presidente e, de resto, todos os políticos poderiam, num surto de verdade, explicar ao povo que a tal da reforma política, que chamam de a mãe de todas as reformas, não sairá nunca. E não sairá, parece ser verdade, porque não é de interesse de nenhum deles, que se recusam a abrir mão do poder e também da expectativa de poder. E enquanto ninguém se dispõe a dizer a verdade e mudar essa realidade, vamos vivendo a mentira de que temos segurança, justiça social, saneamento, educação, saúde etc. Vamos seguindo apaixonados o lado luminoso da lua, fingindo que não existe o outro lado. Está na hora de criarmos o pacto da verdade, e só a presidente Dilma Roussef para implantá-lo. E ganharia mais pontos na sociedade.










