A chuva e a neve


Por JOSÉ ARNALDO DE CASTRO

29/01/2012 às 07h00

Tribuna de Minas, domingo, 15/01/2012, seção Frases: Problemas como esses ocorrem em qualquer parte do mundo, do ministro do Transporte, Paulo Sérgio Passos, advertindo que o Governo está atendendo às demandas após o período de chuvas. Brilhante colocação, magnífica descoberta. E assim fica inventada a roda (brasileira). Eu, às vésperas de entrar na terceira idade, ainda não tinha ouvido falar que qualquer autoridade governamental deste país, após catástrofes naturais, tivesse pronunciado ao contrário essa providência. Tamanho despropósito tem como objetivo induzir-nos, sorrateiramente, que só no Brasil não acontecem catástrofes. É brincadeira e de mau gosto. Ironias à parte, vamos aos fatos reais. Estes já são mais do que conhecidos. Todos os anos, os expertos no assunto alertam para que sejam tomadas as devidas providências de prevenção, afirmando que estas são mais baratas e viáveis do que as correções como, indiretamente propõe o Sr. Ministro. Mas nada é feito.

Prestes também a entrar na quadragésima década de formado em engenharia civil e ter exercido minha profissão por mais de 20 anos no segmento de construção e manutenção de infraestrutura de estrada, quando vejo as consequências trazidas pelas chuvas, fico triste por saber profissionalmente por que acontecem e que voltarão a acontecer. Desastres naturais sempre existiram e vão continuar a existir. São imprevisíveis em qualquer área: chuvas, terremotos, maremotos, tsunamis, avalanches. O que o Sr. Ministro não admite é que países desenvolvidos estão muito à frente de suas ideias. Seus cientistas constantemente estão pesquisando métodos para preveni-los e minimizar seus efeitos e com bastante sucesso, como na Europa Ocidental, Japão, Canadá e EUA.

Vidas humanas são poupadas, bem como seus patrimônios. Recentemente vi pela quarta vez uma matéria jornalística em um canal por assinatura a respeito do que os cientistas têm feito nesses países para monitorar e estudar a probabilidade de haver tais catástrofes, dando soluções, indicando as medidas preventivas que os governos devem tomar, e tomam. Especificamente o que mais me chamou a atenção foi a prevenção quanto às avalanches de neves nas escarpas rochosas dos Alpes europeus. Décadas depois de terem ceifado a vida de esquiadores, depois do soterramento de vilas e de parte de várias cidades, em especial na Suíça, os cientistas prepararam postos de monitoramento nas montanhas através de radares de profundidade, sistemas eficazes de alertas etc.

Geólogos estudam a composição física da neve em diversos pontos, empregando vários métodos científicos. Quando apresentam resultados que possam levar a avalanches, pessoal treinado dá tiro de canhão nas encostas, provocando avalanches antes que elas escorreguem, mesmo sendo à noite. Às encostas mais perigosas, instalam cortinas metálicas em degraus para amparar o volume de neve. Nas estradas, ou constroem túneis falsos ou bloqueiam as estradas na iminência de perigo, devidamente alertado em tempo real. Quando há alguma interdição, máquinas logo vão desobstruí-las.

Concluo afirmando que é mais fácil o homem pisar em Marte (não sei pra quê!) do que as autoridades brasileiras se conscientizarem de que desastres naturais sempre acontecerão e que o que se deve fazer é minimizá-los, prevenindo com antecedência (isso eu sei, e bem).