Leitores extraordinários
Notícias sobre leitores inusitados, em meios considerados inusitados, atravessam, com certa frequência, os noticiários televisivos dos canais brasileiros. Elas trazem exemplos de pessoas que, distantes dos bancos escolares, fisgadas pelo anzol das letras, recolheram, em condições precárias, grande volume de livros e formaram bibliotecas. Está aí o surpreendente!
Neste cenário, uma última notícia, antiga na velocidade da mídia, dizia respeito ao catador de lixo José Carlos da Silva Bahia Lopes, conhecido como Zumbi, de 35 anos, trabalhador em um dos maiores aterros sanitários do mundo. Noticiou a imprensa: o catador de lixo está montando uma biblioteca com os livros que encontra entre materiais diversos, tais como latas, plásticos e garrafas, rodeados de moscas e urubus, estes atraídos pelo odor fétido do material ali depositado.
Na trilha em que segue este texto, os leitores, do lado de cá do saber, já fizeram a ligação com filósofos e poetas como Benjamim e Baudelaire, catando no lixo deste personagem real imagens daquele que coleciona tudo o que a grande cidade jogou fora, tudo o que ela perdeu, tudo o que ela desprezou, tudo o que ela espezinhou, catando pedaços de conhecimento.
Do lado de lá, no catar do lixo, Zumbi (lembremos da carga histórica deste nome!) também já catou pensamentos como os de Nietzsche e Maquiavel! E já acumulou mais de dez mil títulos: dicionários, manuais de informática, obras com noções de Direito Penal e de ficção, até de escritores brasileiros, como Drummond.
Em meio ao luxo da leitura, ato de poucos, e ao lixo, produção de todos, o caminho que desejo tomar nos leva a formular algumas perguntas: por que um leitor se forma em meio ao lixão, não descartando o descartável em outros contextos? E por que, em grande parte das escolas e universidades, um enorme contingente de estudantes descarta o saber disponível, desestimulado de ler? O que há no saber escolarizado que funciona como uma droga inibidora da vontade para a leitura e, por consequência, para uma adequada construção do conhecimento?
Do lado de cá do nosso conhecimento, para responder a isso, seria necessário recorrer a teorias, pesquisas, a todo um aparato acadêmico, com citações, referências etc.; do lado de lá do conhecimento do leitor formado no lixão, ele responde, na singeleza da pergunta: Se você não lê, de onde vem o seu saber?.
E como Rita Lee, que não quer luxo nem lixo, quer só saúde pra gozar no final, estamos nós, os professores, e queremos só saúde para o final… do ano letivo. Mas como se, em meio às fórmulas mágicas e quadradas dos planejamentos educacionais, o que temos é nosso fracasso, diante dos leitores catadores que escrevem os anais da desordem?











