Ferrovia e mobilidade urbana


Por GERSON ROMERO DE OLIVEIRA FILHO

26/03/2013 às 07h00

Em 2012, o Governo federal informou, através do Ministério dos Transportes, que iria retomar os estudos de viabilidade técnica e econômica para projetos de trens regionais de passageiros em ramais ferroviários já existentes. É uma iniciativa que visa resgatar uma modalidade de transporte pouco utilizada no Brasil, mas que apresenta relevância social, ambiental e econômica. O descaso com as ferrovias se acelerou a partir da segunda metade do século XX, quando a política nacional de transportes passou a priorizar o rodoviarismo. Grande parte dos ramais ferroviários foi, gradativamente, desativada e/ou abandonada. Posteriormente, já na década de 1990, a Rede Ferroviária Federal S.A. foi incluída no Programa Nacional de Desestatização (Decreto n.º 473/92), dando início à transferência de seus ramais para a iniciativa privada, em regime de concessão.

Esse programa intensificou o transporte ferroviário de cargas nos rentáveis corredores de exportação por onde se deslocam produtos industrializados e, principalmente, commodities. Nesses ramais, a frequência dos comboios funciona como um verdadeiro termômetro do desempenho da economia nacional. No entanto, entendemos que o Governo federal deveria acelerar o Programa de Trens Regionais de Passageiros para melhorar as conexões entre as pequenas e médias cidades e dinamizar o turismo, atividade com grande potencial de crescimento em nosso país. O retorno dos trens de passageiros, se bem planejado, também ajudaria na mobilidade urbana. É o caso de Juiz de Fora. Seria a volta do Xangai? Talvez, por que não? Mas, com certeza, não poderia ser a velha locomotiva.

O novo veículo precisaria ser mais rápido, pontual, seguro e com tecnologia similar a um Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT). Um desafio, pois a linha que corta a cidade não é duplicada, e a prioridade são as cargas. A opção de misturar transporte de passageiros com transporte de cargas, na mesma linha, não é recomendável por comprometer a segurança no trecho. Poderíamos, então, construir um contorno ferroviário e deslocar o fluxo de cargas para fora do perímetro urbano. Desse modo, o atual trecho que corta o Centro da cidade seria utilizado, exclusivamente, para o transporte de passageiros. Parece fácil, mas quanto custa um contorno ferroviário numa topografia de mares de morros? Por isso, faz-se necessário um estudo prévio sobre a viabilidade técnica, econômica, social e ambiental desse projeto. Um processo demorado, pois exigirá também elevado esforço político para justificar a prioridade e alavancar recursos financeiros.

Enquanto o contorno ferroviário não sai, a cidade busca recursos com objetivo de implementar um conjunto urbano de intervenções viárias, como a construção de pontes, viadutos e mergulhões para transpor a via férrea nos trechos mais críticos. São projetos importantes, porém, centralizados e restritos à problemática ferroviária. Se quisermos, de fato, resolver a questão da mobilidade em Juiz de Fora, será preciso levar em conta a totalidade de um espaço urbano que não se organiza mais pelo vetor ferroviário. Novos vetores de crescimento criam novas centralidades e estendem a cidade para outras direções que também precisam ser consideradas. Portanto, essas intervenções só serão eficazes se forem inseridas dentro de um plano mais abrangente de mobilidade urbana que leve em conta a totalidade e a complexidade dos novos arranjos espaciais que se inscrevem no município.