O Facebook e a solidão


Por MARCO AURÉLIO ZUCHI

25/11/2012 às 07h00

Uma das minhas reflexões diárias sobre o Facebook me leva a acreditar que sua principal função é nos manter por baixo – uma necessidade que temos de nos superar a cada dia, como forma de dar sentido à nossa relação egoísta com o outro, ou seja, estar por cima. Diante do enfraquecimento do espírito coletivo que a modernidade nos apresenta, o Facebook (ponto de encontro da carência humana) se torna o reflexo máximo de um individualismo guloso que muito me intriga. Não basta acontecer, tem que contar para alguém. Assim, o eu legal toma conta das postagens e das notícias diárias. Nunca vi tanta foto de viagem, de festa, de amigos verdadeiros e de comida diferente; relatos de uma vida perfeita. Porém, quanto mais observo as postagens, mais me convenço de que o Facebook agrava a nossa solidão e revela nossos medos na face oposta do espelho.

A vida no Facebook deixa de ser como ela é para ser como as pessoas gostariam que fosse. Assim, o verbo ter, que há anos vem sufocando o verbo ser, agora disputa espaço com a superficialidade do verbo registrar. Preocupamos, primeiramente, em fotografar, para depois sentir. Imagens substituem momentos e atuam como máscaras que escondem uma angústia humana profunda: estamos realmente felizes com nós mesmos? Observo, a cada instante, no Facebook, pessoas negando o impulso de uma vida comum. Na modernidade, não há lugar para a dor do insucesso, ou seja, a vala comum é substituída pelo desejo de uma liberdade irrestrita.

No mundo tereis aflições. Acredito que nossa angústia para superar situações negativas nos aproxima delas como ímãs. Verifico pessoas usando o Facebook como ferramenta para escapar de seus medos. Talvez este seja o segredo do sucesso desta rede social: alimentar nosso esforço para escapar desta vida comum, nos tornando ainda mais prisioneiros de tudo que ela representa.

Gostaria de finalizar esta minha reflexão sobre o Facebook dando lugar ao movimento do eu sou feliz, e isto basta. Uma revolução pela recordação verdadeira que invade o nosso coração; um movimento pelo coletivo, pelo próximo, pelo sentido simples da vida. Convido meus amigos revolucionários, proletários cibernéticos, massacrados pela ausência de uma vida fantástica, que bebem da água do cotidiano e comem feijão com arroz, que amam seus filhos na carne e não na imagem de Narciso, que viajam e têm amigos que habitam a memória. Encanta-me saber que Drummond foi poeta no caminho de sua casa até o seu emprego. Há poesia na vida comum, e isto é melhor do que ser legal no Facebook.

Convido o leitor a não navegar na superficialidade do Facebook, mas a ter coragem de mergulhar na consciência e não ter medo de si mesmo. Esta não é uma reflexão da inveja, nem uma verdade absoluta, mas o simples resgate de uma vida comum que clama por descer do ombro de alguém.