Uniões esdrúxulas nas eleições


Por PAULO CESAR DE OLIVEIRA

25/01/2012 às 07h00

No interior das Minas Gerais, diz-se daquilo que é sem sentido, esdrúxulo, ser o resultado do casamento de tatu com cobra. E o que estamos prestes a assistir nas eleições municipais deste ano são centenas, milhares, dessa estranha união. São as alianças que vão se desenhando no cenário político.

Para se fazer justiça, coligações e alianças estranhas não são propriamente novidade em nossa política. Só para ficar naquela que é talvez a mais simbólica delas: a chapa Jan-Jan, Jânio-Jango, o primeiro, digno representante do conservadorismo de direita, e o segundo, do trabalhismo populista e da república sindicalista. Dela, sem faltar muito com a verdade histórica, é possível dizer que resultou o golpe de 1964.

Mais recentemente se enquadram nesse modelo as alianças de Collor com Itamar e de Lula com José Alencar, e até mesmo de FHC com Marco Maciel, apesar do discreto comportamento do vice.

Todas essas alianças tiveram a marca do pragmatismo. Nada político, mas apenas eleitoral, tais eram as histórias dos envolvidos, sem qualquer juízo de valor. Por serem pragmáticas, tiveram preço. Mudar comportamento e discurso, passar a achar belo o que se renegava pela feiura, ninguém faz de graça. Todos querem a recompensa. E quem paga somos nós. Desde muito temos um Legislativo – em todos os seus níveis – de cócoras, inteiramente submetido ao Executivo. Basta uma passada de olhos no que Vossas Excelências, os legisladores, estão aprovando para se constatar. Raramente se encontra algo de relevante de autoria parlamentar.

Congresso, assembleias e câmaras municipais têm sido meras homologadoras dos desejos dos executivos. Se é difícil encontrar alguma lei proposta por parlamentares, mais difícil ainda é ver algo proposto pelos governantes sendo rejeitado pelo Parlamento. Senadores, deputados, federais e estaduais, e vereadores aprovam tudo, mesmo aquilo que é flagrantemente contra seus discursos. Quando muito, alguns reagem votando em branco ou sumindo do plenário. Até a oposição se acumplicia, participando da farsa com declarações de voto vazias. O preço disso? As emendas parlamentares, os cargos, o apadrinhamento e até um discreto fechar de olhos aos malfeitos dos da turma.

Às vezes, quando não há uma liderança real que se faça respeitada, o pragmatismo desanda em brigas, acusações, fogos amigos, como temos assistido nos últimos tempos. E quem paga a conta desse nefasto pragmatismo, saudado como capacidade de montar a governabilidade, somos nós, é o país, que não consegue realizar a reforma necessária para alçar o voo da águia, contentando-se com o voo curto da galinha.