Itamar e o bando de sonhadores


Por ISMAIR ZAGHETTO

24/07/2011 às 07h00

Sim, um bando de sonhadores. Como é comum nos jovens de visão larga e muita sede de futuro. Talvez seja mais apropriado falar em mocidade do que em juventude. A idade média mal passava dos 30 anos. O líder, Itamar Franco, tinha 36. Era a voz do equilíbrio e da ponderação. Atlético, bom jogador de basquete e a agilidade própria dos engenheiros nos andaimes da obra e da vida.

Para se imaginar o arrojo dessa garotada, basta lembrar da solenidade de posse em janeiro do ano seguinte. Enquanto o chefe era empossado na Câmara Municipal, um arsenal incrível de dragas e caminhões concentrava-se no cruzamento da Rio Branco com Independência (aliás, acho que já podemos chamá-la Avenida Presidente Itamar Franco). Explica-se: a Rio Branco estava interrompida há tempos em frente ao velho Stella Matutina. Acreditavam o jovem prefeito e seus audaciosos amigos que era preciso, de saída, dar um recado à cidade.

O recado foi dado, no melhor estilo estamos aí, viemos para mudar. Em vinte e quatro horas, a avenida já tinha tráfego, depois de fechada há tanto tempo. Um mês antes, falando para rotarianos sobre seu plano de obras, Itamar teve que entrar no Palace Hotel através da janela. Um temporal no fim da tarde inundou toda a parte baixa do Centro da cidade. Com todas as letras, Itamar garantiu para aquela assembleia que, ao fim do seu Governo, inundações como aquela não aconteceriam mais.

Aquele grupo alegre, às vezes irreverente, vivia à cata de desafios. Corajosos, dispostos, alheios a relógio de ponto ou a valores materiais (sim, alguns não eram sequer ligados à Prefeitura, trabalhando por amizade ao Itamar e amor a Juiz de Fora), descobriram o que queriam: uma cidade encolhida na própria impossibilidade de descobrir-se.

Para se ter uma ideia do entusiasmo e disposição daqueles moços que, após o expediente da Prefeitura, saíam procurando desafios a serem vencidos, basta a recordação de que o rompimento da Garganta do Dilermando foi decidido sob um gelo de meia-noite de julho seguinte. Éramos sete ou oito e estávamos sentados em uma pedra fria, lá no alto, contemplando a cidade, quando Itamar, olhando mais uma vez a formação rochosa, disse para os companheiros: Acho que dá para encarar. E de fato encarou, como faria, aliás, com a outra ponta da avenida, onde hoje está o McDonald’s: a Rio Branco quebrava à direita, em ângulo agudo para a Morais e Castro. Foi desapropriada a área necessária, e a curva tornou-se suave.

Enfrentaria outro antigo problema um pouco além, no ponto (Pedro Botti) onde a estratégica Severiano Sarmento era obstruída pela antiga propriedade do saudoso e folclórico Pedro Bananeiro. Num estalo, como em outros locais, aquela rua se recompôs numa segunda ligação Passos-São Mateus. Tão importante que, hoje, permite que a Morais e Castro tenha mão única.

Estas são meras pinceladas do que foi a imensa aquarela pintada por Itamar e seus jovens amigos. Definitivamente, Juiz de Fora não seria mais a mesma.