Precipitações
Sem considerar-me um saudosista rabugento e intolerante ante os avanços tecnológicos, reservo-me o direito de não aceitar que me enfiem goela abaixo assertivas precipitadas de alguns interlocutores e, até por isso, tenho participado de alguns debates acalorados.
Com o advento do cinema, em princípios do século XX, uma grande maioria, precipitadamente, decretou o fim do teatro, forma de expressão que vinha desde os primórdios da história. Passa o tempo e, a despeito de mudanças acontecidas, o teatro aí está nos proporcionando cultura e lazer.
Surge a televisão, que muitos precipitados saíram alardeando ser o cadafalso do cinema. Que nada, de mãos dadas e em parceria inquebrantável, teatro, cinema e televisão atravessam momentos de muita criatividade.
Com a internet, precipitadamente, andam decretando o falecimento dos jornais, revistas e livros impressos. Outra quebrada de cara. Irmanados e com as mesmas maravilhosas intenções, o teatro, o cinema, a televisão, jornais, revistas, livros e a internet coexistem pacificamente dividindo as preferências dos interessados.
Vi avalizadas as minhas opiniões sobre as precipitações em questão através de recente pesquisa encomendada ao Ipea pela Câmara Brasileira do Livro, concluindo que, de 2009 para 2010, o número de exemplares de livros impressos no Brasil chegou a 500 milhões, com crescimento de 23% no período. Ainda que longe do ideal – média de leitura de 1,8 livro per capta por ano -, é visível e traz esperança a alta taxa de crescimento do mercado editorial do país. Como prova, a chegada de vários grupos editoriais de todo o mundo e mais um número expressivo de fusões destes com empresas brasileiras. Não tenho conhecimento de que o mercado invista dinheiro sem que tenha expectativa de segurança e retorno do capital acrescido de lucros.
O jornalista italiano Paolo Mieli, que já dirigiu os jornais Corriere della sera e La stampa e atualmente é presidente da editora RCS Libri SpA, palestrando sobre a atualidade da imprensa, entre outras considerações, diz o seguinte: …Durante séculos, o teatro foi a maneira de se expressar, da Grécia antiga até o fim do século XIX. Depois vieram o cinema e a TV. O teatro não morreu, mas não é o mesmo do passado. (…) Na imprensa pode acontecer algo similar. O papel impresso será algo mais elitista, com menos cópias, mas se um autor quiser contar a fundo a realidade, ele passará pelo impresso. Será onde se adquire a visão definitiva de um evento. (…) A leitura do jornal, quando alguém se senta no bar e com tempo, curte a informação, é um ritual. É como os livros que hoje podem ser lidos em tablets. Mas tenho a convicção de que os livros no formato tradicional ainda deverão durar uns 250 anos.
Que bom, pois, como já dizia Monteiro Lobato, um país se faz com homens e livros!










