Mensalões, causas e consequências
Em enquete recente, publicada neste jornal, constatou-se que os entrevistados têm dedicado maior atenção ao julgamento do chamado mensalão do que às eleições municipais. Não é de se estranhar tal fato. Se, por um lado, a corrida eleitoral está apenas começando, por outro, o julgamento tem recebido destaque considerável na imprensa nacional.
É indiscutível o lado positivo desse interesse da população. Afinal, é inegável que se trata de um momento político importante, no qual estão sendo julgadas figuras proeminentes da política nacional, sendo que muitas delas exerceram cargos de direção no partido que vem comandando o país desde as eleições de 2002. Estar atento, portanto, a esse julgamento é um sinal de que as pessoas se interessam em saber qual será o capítulo final dessa novela que se arrasta há mais de sete anos.
Contudo, chama a atenção a cobertura dada pela imprensa a esse acontecimento. Não que ela esteja errada em conferir importância ao fato. O que interessa perceber é como essa cobertura reflete um problema agudo da política brasileira: confere-se mais atenção às consequências do que à origem dos problemas. Explico: a imprensa cobre as denúncias dos fatos ocorridos, mas não aprofunda na inquirição das causas desse escândalo que atingiu não apenas o PT nacional, mas, também, o PSDB mineiro e diversos outros partidos.
Não vemos, em quaisquer meios de comunicação, uma reflexão mais densa sobre as causas desses mensalões. Parece que o problema da corrupção é uma questão relacionada apenas ao mau-caráter dos políticos, quando as causas são muito mais profundas. Caso a imprensa desejasse estimular um debate sincero em torno desse tema, ela contribuiria para abrir uma discussão pública acerca dos problemas estruturais existentes no nosso sistema político – como o financiamento privado das campanhas eleitorais e as intrínsecas conexões de agências de publicidade com os diversos governos -, que são as verdadeiras causas do problema e que fazem dos escândalos de corrupção não a exceção, mas a regra da nossa vida democrática.
Mas esse, infelizmente, não é o interesse da imprensa. Se fosse, os debates que tiveram curso ano passado, no Congresso Nacional, sobre a reforma política teriam tido mais atenção do que o chamado mensalão. Alguém ouviu falar da reforma política?










