O Papa não é ‘pop’
O Papa deveria renunciar foi o título da entrevista concedida pelo teólogo Leonardo Boff à revista Isto é em junho de 2010. Na ocasião, o ex-frei, condenado ao silêncio obsequioso pelo Vaticano – o que culminou em sua saída da Igreja Católica -, apontou como uma das principais razões para a renúncia do Papa Bento XVI a inadequação de seu discurso ao mundo moderno e globalizado. Boff declarou: Os homens de hoje têm o direito de receber a mensagem de Jesus na linguagem de nossa cultura moderna, coisa que a Igreja não faz. Ela coloca sob suspeita e até persegue quem tenta fazer. O teólogo criticou também o fato de o Papa infantilizar os fiéis, minimizando o problema da pedofilia no âmbito da IC, bem como de não promover o diálogo inter-religioso, ainda que se gabe disso.
Aos olhos das alas mais conservadoras, identificadas com o Papa, as acusações de Boff podem ter soado, à época da entrevista, como uma provocação e, mais do que isso, como um ato rancoroso de alguém que foi praticamente convidado a se retirar da instituição, num processo que teve a participação efetiva de Joseph Ratzinger, um ardoroso antagonista da Teologia da Libertação. Mas o fato é que o ex-frei, grande mentor desta corrente progressista da IC, estava, na verdade, prenunciando algo que viria a acontecer quase três anos mais tarde, mas que evidencia não só um desejo pessoal e sim a expressão de um sentimento compartilhado por vários setores da Igreja, inclusive por boa parte dos fiéis.
O papado de Ratzinger, marcado pelo conservadorismo, certamente contribuiu para o esmorecimento da fé católica. Nos últimos dez anos, conforme o Censo, a maior nação católica do planeta teve seu rebanho reduzido de 73,6% para 64,6%, perdendo terreno sobretudo para os evangélicos. Projeções indicam que, em 2030, o número de católicos em nosso país encolherá ainda mais, sendo que eles passarão a representar menos de 50% da população. Na Irlanda, as estatísticas foram ainda mais drásticas: de 2005 para 2011, o percentual de católicos caiu de 69% para 47%, conforme levantamento feito pelo WIN-Gallup International e divulgado na revista Planeta (edição nº 482, novembro de 2012). A razão apontada pela publicação foi os escândalos sexuais envolvendo os padres. Portanto, a renúncia de Bento XVI poderá ajudar a estancar a debandada de católicos mundo afora, desde que a IC não continue na contramão da história, elegendo agora um Papa que saiba falar a língua dos homens de hoje.
O novo líder espiritual mor da IC deverá ter um perfil oposto ao de Ratzinger, sendo capaz de contribuir decisivamente para resgatar a força do catolicismo no Brasil e no mundo, se é que ainda é possível conter as fissuras deixadas por Bento XVI, que, ao contrário de seu antecessor, definitivamente, não foi um Papa pop.









