O professor

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Adicionar Tribuna de MinasPelos bancos de escola aí afora, certamente se encontram alunos folheando, monótonos, seus dicionários enxovalhados e encardidos. Procurando palavras, transcrevendo definições, inconformados com a tarefa desferida por uma professora de aparência empertigada. Ao esbarrar na palavra professor, qualquer um desses poderá constatar, em um, dez ou na maioria dos dicionários: aquele que ensina…. Soará tão óbvio que muitos se perguntarão: faz-se necessário recorrer ao calhamaço dos calhamaços para descobrir o que já se sabe? Nunca se deve conformar de pronto. Citando Galileu Galilei, não se pode ensinar nada a um homem; só é possível ajudá-lo a encontrar a coisa dentro de si.
Para delírio dos mais reacionários, parece que a autoridade quase eclesiástica que possui o pai dos burros foi posta em xeque. Quão prazeroso seria a qualquer aluno confrontar seu professor com essa contradição, a de Galileu contra o léxico. Qual seria a reação do professor desconcertado? Ora, professor é aquele que ensina, mas nada se pode ensinar. Parece indissolúvel e incontestável aos mais afoitos para surpreender o mestre. No entanto, é nessa eterna impossibilidade de ensinar que reside o maior mister, o sagrado dever do magistério: não transmitir, mas promover o verdadeiro encontro com o conhecimento.
A missão do professor é ajudar a encontrar a coisa dentro de cada um. Fazer crer em si mesmo, ajudar a descobrir o mundo que cada ser humano encerra. Quando a família abandona seus filhos à própria sorte, o professor precisa acreditar. Quando os professores são abandonados à própria sorte, eles precisam acreditar. Quando ninguém mais acredita, eles precisam acreditar. Essa crença precisa ser tão verdadeira a ponto de convencer toda uma juventude, por vezes sem esperança, a também acreditar… Acreditar em si. Acreditar porque alguém acreditou, porque o professor acreditou. Esses heróis enfrentam diariamente um mundo que se opõe ao seu objetivo, um mundo que depõe contra o potencial incrível que cabe a eles revelar. Mas que permaneçam incansáveis, pois, mais que uma profissão, exercem um ministério, um sacerdócio.
Quantas lembranças de nossos mestres carregamos para a vida: nunca se esquecerá aquela advertência, aquele elogio, um abraço. A primeira aula, a última. Sempre existirá um professor bonachão, engraçado, um professor bravo, temido de todos, respeitado. Mas é fato que só sabe o que representa ser professor quem já foi aluno. É um ofício que não se completa em si ou no profissional que o desempenha. O magistério concretiza-se no outro. Assim, cada aluno compreende perfeitamente o que é ser professor, uma vez que o professor o é para o seu aluno, em seu aluno. O professor enxerga um potencial invisível aos olhos, imperceptível a muitos que o têm em si, mas falta-lhes o conhecimento supremo, o conhecimento de si.
Nas palavras de padre Antonio Vieira: mais segura é uma ignorância bem-aconselhada que uma ciência presumida. Aos mestres, que não somente ensinam equações, datas históricas, capitais e verbos; aos mestres, que dirigem nossas ignorâncias, ignorância de si, com seu exemplo e confiança; aos mestres, as melhores lembranças da melhor fase de nossas vidas.









