Entrou areia


Por TADEU SILVA Colaborador

21/07/2011 às 07h00

Qual jogador da várzea brasileira, antigo celeiro de craques selecionáveis, anteriores às dispendiosas escolinhas, não enfrentou a movediça areia dos campos espalhados pela antiga indigência urbana? A cartografia do drible subjaz sob o peso concreto do crescimento econômico, que obliterou nossa livre criatividade. O poder sumaríssimo de resolução da problemática minúscula, feito um corner, maiúscula, feito um quarteirão, sucumbiu ao esquematismo exótico, sinal dos tempos, feito um cartão vermelho.

Semana passada, esta Tribuna pontilhou, em matéria sobre expulsão de jogadores, discutida na egrégia Câmara Municipal, o roteiro que leva à Fifa. Domingo, após a eliminação, em entrevista, o Robinho explicitou o itinerário em espanhol. O Kaká, ilustre ausente, é poliglota, e não deve falar português nem consigo mesmo, pavimentando o caminho rumo ao gol, contra. Players globais entendem-se a si mesmos na supradimensão do fair-play da peleja internacionalizada.

Exigir de um Elano empenho para comer grama, se necessário, como exigia há tempos de suas feras um João Saldanha, luminar da crítica futebolística, é tão extemporâneo como um drible do Mané. A alternativa ao cardápio vegetal era fazer a bola rolar, como se diz, redonda, parafraseando Neném Prancha. Afinal, ainda na antologia, foi vendo Pelé emplacar mais uma obra-prima que Nelson Rodrigues exclamou: A seleção é a pátria de chuteiras.

Quando a seleção de 70, tricampeã mundial, embarcou para o México, depois de uma campanha bisonha nas eliminatórias, quando se classificou no último jogo, diante do, chi… Paraguai, 1 x 0, Pelé, com o maior público que o Maracanã recebeu em jogos da Seleção (desculpem-me a quase abstração ao texto), o mesmo Nelson Rodrigues emendou: Acabou o exílio! Visse a convocação hoje, exclamaria: começou!.

Nação é povo, território, língua. Acabaram os campos de várzea. O diálogo é uma babel. E os donos da bola, que, com licença, é quem fala mais alto, são senhores estribadíssimos, ao contrário da modestíssima condição da maioria dos torcedores. A cobrança dos quatro pênaltis foi o resumo da bola fora. Não nos reconhecemos ali, digitalizados e perfeitamente enquadrados, feito uma animação. Daríamos um jeitinho bem brasileiro na adversidade arenosa. Não seria a primeira vez. Colocaríamos um tempero brasileiro naquele bean with rice (feijão com arroz) insosso.

Mas é muita areia para o caminhão de meninos docilmente amestrados pela fortuna ou virtú. Em verdade, o tom nostálgico desse artigo é sintoma mesmo do desencontro de nossa sociedade, tangida e indefesa diante do jogo da padronização civilizatória. O violento esquematismo do processo bota água no chope da nossa nacionalidade. Água e areia, misturadas, é uma impossibilidade ontológica, que jeitinho nenhum resolve. Ficamos, assim, atolados na marca do pênalti.