Deus e César


Por IRIÊ SALOMÃO DE CAMPOS Comunidade Espírita A Casa do Caminho

20/10/2012 às 07h00

Encerrada a eleição para o legislativo municipal, termina também a cantinela de promessas. Cada qual retorna a seu lugar de origem, esperando o momento da posse. O que foi nas urnas derrotado certamente questiona-se ou culpa algo por sua frustração. Nós eleitores, de certa forma, também trafegamos entre perdas e vitórias, nem tanto pela eleição do candidato que apoiamos, mas exatamente pelos resultados que sua gestão apresentará. Para os militantes e partidários mais ferrenhos, o aferimento de cada urna é mais que um simples resultado: é uma questão de felicidade ou frustração, como se nossa vida, em suas mais profundas nuances, de fato dependessem deste ou daquele governante. A política e seus atores são do mundo, cuidam de importantes e delicadas questões gerais dos povos, mas não possuem poder suficiente para deliberar sobre a felicidade ou qualquer outro destino de nossa vida particular, isto se, claro, pretendemos progredir como cristãos.

A dita felicidade no mundo não passa de suspiros de alegrias que flutuam de um lado para o outro, inconsistente e passageira. O grande líder de ontem é página da história hoje, e, não raro, seus delitos e arranjos são expostos aos olhos de todos que antes o aplaudiram.

Como cidadãos dedicados ao Estado em que vivemos, não é aconselhável darmos as costas às questões públicas, o que é bem distinto de nelas depositarmos as mais profundas e elevadas emoções. Não por considerar o poder público algo danoso ou por seu descrédito, mas pelo fato de os distintos representantes estarem mais atentos aos passageiros poderes do mundo.

Vitorioso não é aquele que vence os outros, mas é o que vence a si mesmo, dominando seus vícios e superando seus defeitos e vaidades, que, se não forem combatidos com eficácia, atuarão no mais profundo de nosso íntimo, como vírus infectante, consumindo a paz interior, fazendo proliferar o desânimo, a angústia e a depressão.

Se ao nosso lado alguém erra, frauda, macula a lei em benefício próprio enquanto sofremos com a falta de tantas necessidades, pensamos: por que não posso fazer o mesmo? Todos fazem. Aí, assolados pelo materialismo imediatista, incorremos em grave risco e, buscando orientação, recorremos a Paulo, o Apóstolo de Cristo: Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém (Coríntios 6:12).

O ensinamento não poderia ser mais oportuno em tempos de sarcasmo e vilania. Paulo, o Apóstolo, nos mostra a clara distinção entre as coisas da terra e as vitórias no bem. Isso vale para todos que trazem no íntimo o desejo de transformar o mundo, a rua em que vivem em um espaço saudável, ético, fértil ao progresso. No mesmo sentido ensina Jesus: a César o que é de César, a Deus o que é de Deus.