A supremacia americana
“A volta de Donald Trump à Casa Branca marcou uma mudança clara de postura: menos diplomacia retórica, mais ação direta”
A política internacional funciona como um relógio antigo: quando uma engrenagem falha, outra faz barulho. Foi isso que aconteceu com os Estados Unidos após anos de atuação discreta no cenário global. A volta de Donald Trump à Casa Branca marcou uma mudança clara de postura: menos diplomacia retórica, mais ação direta.
Durante o Governo Joe Biden, a percepção – correta ou não – era de que Washington havia reduzido seu protagonismo, enquanto China e Rússia avançavam sem constrangimento, usando força militar e influência econômica para ampliar áreas de poder. Trump leu esse movimento como fraqueza. E respondeu do modo que lhe é característico: com demonstrações explícitas de autoridade, com indisfarçáveis ares de autoritarismo. O caso da Venezuela ilustra bem essa guinada.
A queda de Nicolás Maduro foi apresentada, sem provas concretas, como resposta a um regime autoritário associado ao narcotráfico e à instabilidade regional. Mas, como quase sempre ocorre na história, princípios e interesses caminharam juntos. A presença americana sobre um território com grandes reservas de petróleo não é detalhe secundário – é parte central da equação. Esse padrão não é novo. Os Estados Unidos frequentemente combinam discurso moral, argumento de segurança e cálculo econômico.
A novidade está no tom: menos mediação, mais imposição. A Groenlândia entrou novamente no radar estratégico. A Bolívia aparece como possibilidade futura. O recado é simples: a América voltou a agir como potência armada que não pede licença nem se preocupa com interesses de outras potências, colocando o mundo em sobressalto.
O risco dessa estratégia é conhecido. A força resolve problemas imediatos, mas cria dependências e resistências duradouras. Ao transformar o mundo em área de intervenção constante, Washington corre o perigo de confundir liderança com tutela permanente. A história ensina: impérios não caem por falta de poder, mas por excesso de confiança nele. E Trump, que tenta reconstruir este império, já começa a enfrentar resistências dentro de seu próprio partido.
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