Admirável pastor
A história do Brasil ficou enfraquecida com sua morte e enriquecida com a sua trajetória. A Igreja chorou seu passamento e cantou aleluias pela sua entrada na casa definitiva do Pai, deixando um rastro de luz nas estradas por onde andou, imitando o Bom Pastor, desde 1943, quando foi ordenado presbítero, mas sobretudo a partir de 2 de fevereiro de 1954, quando foi sagrado bispo. Nasceu em Acari (RN), aos 8 de novembro de 1920.
As exéquias celebradas na moderníssima Catedral de São Sebastião do Rio de Janeiro, às 15h do dia 11 de julho, festa litúrgica de São Bento, contaram com seis cardeais brasileiros, o Núncio Apostólico, mais de quarenta bispos, cerca de quatrocentos presbíteros, inúmeros diáconos e milhares de fiéis emocionados, que superlotaram aquele amplíssimo templo. Tratava-se de um admirável pastor, dos mais ilustres filhos da Igreja, o mais antigo cardeal até o momento. Participara ativamente do Concílio Vaticano II (1962-1965) e de várias formas no governo central da Igreja com muitos cargos na Cúria Romana, seja no tempo de Paulo VI, seja na época de seus sucessores. O Eminentíssimo cardeal Eugenio de Araújo Sales, na serenidade de um anjo, no silêncio monástico do ambiente bucólico do morro do Sumaré, ao lado da colossal imagem do Cristo Redentor, faleceu na segunda feira, 9 de julho, às 22h30. Naquela residência, entre o bosque, verdadeiro santuário ecológico, dom Eugênio viveu os últimos 30 anos de sua vida, como Arcebispo do Rio de Janeiro, desde 1971, sucedendo o não menos admirável cardeal Jaime de Barros Câmara.
Particularmente, tenho o cardeal Eugenio Sales na lista dos prelados que eu mais admirava e com quem pude, por sua bondade, manter relações de feliz amizade. Os colóquios com este admirável prelado da Santa Igreja me iluminaram e fortificaram a fé em muitas ocasiões.
Suas posições inequívocas e respeitosas na Conferência Episcopal foram determinantes para a vida da Igreja em nosso país. Homem de Deus e da Igreja nos deixa um legado de riquíssimo valor espiritual e pastoral, sobretudo no que tange à fidelidade inconteste a Deus e ao ministério episcopal, destacando-se visivelmente pela vivência esplendorosa da Santa Palavra, pelo amor a Cristo, à Igreja, aos Sucessores de Pedro, à missão de ensinar e santificar. Fundador da Campanha da Fraternidade, do MEB (Movimento de Educação de Base), iniciador das Comunidades Eclesiais de Base em seu modo autêntico, amou o Povo de Deus com particular afeto. Soube salvar presos políticos, sem quebrar a harmonia nem ferir o respeito e o diálogo com os governantes, demonstrando sua opção pela paz, pelo devotamento aos direitos da pessoa humana, e revelando, sem sombras, suas convicções político-sociais no sentido de defender uma sociedade justa e fraterna e uma forma de governar que não exclua Deus, nem iniba o direito das pessoas de praticarem livremente sua fé. Defensor fervoroso da vida e da dignidade da família, deixa um apelo veemente contra a mentalidade abortista e a degeneração dos costumes que ameaçam a sacralidade dos lares.
Ao mesmo tempo em que convivemos com o pesar de seu desenlace, renovamos nossa fé na ressurreição, elevamos a Deus Altíssimo mil ações de graças pelos imensos benefícios que sua vida representou para todos e pelo exemplo de autenticidade sacerdotal que deixa sobretudo para os ministros da Igreja de hoje e do futuro. Requiescat in pace! Gratias tibi, Domine!










