‘Almôndegas de Ouro’


Por CARLOS CAZÉ Cientista social

19/02/2012 às 07h00

Resgatar o carnaval de Juiz de Fora é, primeiramente, honrar seu passado de glórias. Embora pareça simples, o mundo do samba tem dado provas de que se esquece com facilidade de seus melhores momentos. Contra isso, cumpre lembrar que, neste mês de fevereiro, no dia 22, precisamente às 3h50, completam-se 30 anos do desfile mais fascinante, luxuoso e deslumbrante da história do carnaval da cidade: Almôndegas de ouro, da escola de samba Partido Alto.

Testemunhas ilustres, como os atores Edson Celulari , Neuza Borges e Lúcia Alves; jornalistas famosos, como Hélio Costa e Ney Gonçalves Dias; personalidades de todos os segmentos, que, junto ao público, em delírio, lotavam as arquibancadas, puderam comprovar que jamais o carnaval da cidade ousara tanto, contando a história do Barão de Catas Altas, seu amor às riquezas e à traição dos amigos, quando houve sua ruína. Dividindo o enredo em cinco períodos(baseados no livro Gongo soco, de Agripa Vasconcellos), a Partido Alto elevou o status do carnaval de Juiz de Fora e tornou a disputa daquele ano absolutamente secundária, pois todos imediatamente compreenderam que se estava diante de uma página da história, ainda hoje a melhor, e cuja soberania só pôde ser levemente ameaçada, em 1984, pela Feliz Lembrança, com seu Eneida, o pierrô está de volta, e pela Turunas, em 2002, com seu Atlântida, o continente perdido.

Entrelaçando com precisão os períodos do enredo, o grande artista Eloy Woyames (detentor de vários prêmios nacionais, inclusive o de melhor costureiro do Brasil, e, sem dúvida, a maior vítima da ingratidão do nosso carnaval), depois de dar à Turunas do Riachuelo títulos consecutivos nos anos 1970, atingiu o máximo de sua força com aquele monumento à arte momesca, no qual os componentes abriam alas para que os destaques – em número jamais visto – desfilassem livremente pela passarela da Avenida Getúlio Vargas, levando o severo crítico Décio Cataldi a declarar, estupefato, que parecia estar a Beija-flor desfilando em Juiz de Fora.

Portanto, nessa rápida recordação, cumpre citar Cícero: viver na ignorância do que aconteceu antes de nascermos é ficar para sempre na infância. Pois qual é o valor da vida humana se não a relacionamos com os eventos do passado que a história guardou para nós?.