O Ribeirão Independência transbordou

“Há poucas décadas, mais da metade dessa enorme área era coberta por matas, quintais, jardins e ruas não asfaltadas. Uma verdadeira esponja que filtrava para o lençol freático todo o excedente das chuvas fora da acomodação na calha do Ribeirão Independência”


Por Vanderlei Tomaz, escritor

18/01/2026 às 07h15

Nos anos 60, foi aberta a Avenida Independência (atual Avenida Presidente Itamar Franco) no Governo do prefeito Adhemar Rezende de Andrade e concluída por seu sucessor, Itamar. Parte do seu canteiro central e de uma das pistas está sobre um córrego que foi canalizado. É o Ribeirão Independência.

No centro de um vale ele recebe todas as águas pluviais dos atuais bairros São Mateus, Mundo Novo, Santa Cecília, Dom Bosco e Estrela Sul. E mais adiante, também do Granbery, Alto dos Passos, Bom Pastor e parte do centro.

Há poucas décadas, mais da metade dessa enorme área era coberta por matas, quintais, jardins e ruas não asfaltadas. Uma verdadeira esponja que filtrava para o lençol freático todo o excedente das chuvas fora da acomodação na calha do Ribeirão Independência. Até que uma grande galeria de concreto foi construída retificando e canalizando o córrego. O canal foi totalmente coberto por uma laje que impede a visão sobre o seu estado.

Depois disso, milhares de construções surgiram na região.  E sabe-se lá quantas dispõem de um sistema de coleta e aproveitamento das águas das chuvas! Com a impermeabilização de boa parte do solo a contribuição das precipitações para o leito do Independência cresceu muito.  Somam-se a isso a sujeira das ruas e a terra carreada para os bueiros pelas enxurradas.

Resultado: o córrego está muito sujo e sua calha já não está dimensionada para suportar as tempestades.

Quando vejo um novo prédio sendo erguido numa das ruas ou avenidas deste vale que forma a bacia do velho e sofrido Ribeirão Independência, vem logo a pergunta: o lugar está preparado?

É preciso reabrir trechos dessa grande galeria, verificar e limpar. Como é feita esta manutenção hoje? As redes de drenagem da região central da cidade também podem estar bem assoreadas. A população deve se sentir responsável pelo descarte indevido do seu lixo. Ainda: é urgente repensar toda essa dinâmica de aprovação de projetos de construções nesses espaços fragilizados.

As enchentes e prejuízos vistos ali acontecerão muitas vezes. Debaixo do asfalto da avenida existe um córrego coberto. Se as águas da chuva estão se acumulando mais e custam a deixar a Itamar Franco, Padre Café, Batista de Oliveira, Moraes e Castro, Rio Branco e outras, é porque o Ribeirão Independência, que passa escondido sob o asfalto, ficou estreito demais. E transbordou!

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