#avançabrasil!


Por WANDERSON CASTELAR Vereador (PT-JF)

17/07/2013 às 07h00

Há pouco mais de um mês, as ruas e as cabeças do país entraram em polvorosa. Os protestos contra o aumento das tarifas do transporte coletivo, iniciados em Porto Alegre no final de março, ganharam expressão nacional quando explodiram em São Paulo, no início de junho. Na maior cidade do continente, foram registrados os mais duros confrontos entre manifestantes e Polícia Militar, cuja vocação para ampliar conflitos mais uma vez se confirmou. Em dominó, as cidades aderiram à onda de protestos, que se tornaram multitemáticos.

Em menos de 30 dias, milhares de brasileiros deram aos governantes o seu recado: chega de tapeação! Antes de tudo, um grito indignado contra o sistema de representação política que já não inspira confiança à maioria da população nem absorve de maneira satisfatória as demandas de uma sociedade cada vez mais complexa e exigente. O que teremos pela frente? A indagação comporta muitas respostas, mas nenhuma certeza.

Usando de cautela, como se recomenda à análise de uma história que ainda está sendo escrita, eu diria que depende. Depende das respostas que Dilma e o Congresso, que estão no olho do furacão, vão dar às ruas. Depende de como as ruas verão estas respostas e vão se comportar a partir daí. A presidente foi rápida e propôs o plebiscito para impulsionar a reforma política, que se arrasta há anos no Congresso. Este, atiçado pelo cinismo da oposição e pelo oportunismo dos que se nutrem da atual estrutura, apoia-se em argumentos jurídicos demofóbicos contra a ideia de ampliação da soberania popular, prestando um serviço às elites que correm do povo como o diabo da cruz.

O jogo parece truncado, e, a esta altura, só uma personagem será capaz de tirá-lo do 1×1. A mesma que ensejou este inusitado debate: as ruas. O discernimento delas em relação ao processo histórico vivido pelo país, assim como a identificação dos atores políticos neste cenário, é fundamental para impor o alargamento dos marcos que regulam nossa democracia. O povo que gritou para ser ouvido não pode se calar diante da surdez daqueles que nada querem lhe dar.

Tenho insistido na tese de que os problemas abundantemente denunciados pelas manifestações, que vão da corrupção à carência dos serviços públicos, passando pelo preconceito e pela intolerância, têm uma origem em comum, embora não seja a única: as distorções do sistema político tupiniquim, provocadas pelo abuso do poder econômico. Além da compra de votos e do aliciamento de eleitores, o processo tende a comprometer os eleitos com interesses escusos, levando mandatários, não raro, ao banco dos réus. Neste contexto, a adoção do financiamento público de campanhas surge como o elemento central de uma reforma política, constituindo-se na forma mais barata e eficaz de combate à corrupção no Brasil.

Além desta reforma, um campo de oportunidades foi aberto para a sociedade e para o país. É preciso colocar sobre a mesa uma agenda de transformações estruturais, do qual o redesenho do sistema de representação, com mais democracia e participação popular, seja apenas o ponto de partida. O desafio maior continua sendo a superação das desigualdades, trabalho que exige o fortalecimento do Estado para que este ofereça serviços de qualidade e universais, com ênfase em saúde, segurança, mobilidade e educação. É um novo país que precisa ser construído – e será. Com a força das ruas e de todos que desejam ver o Brasil avançar.