Professores e primaveras


Por MARIA INÊS DE CASTRO MILLEN Professora e coordenadora de pesquisa do CES/JF

16/10/2012 às 07h00

Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa – João Guimarães Rosa.

Ser professor por gosto e vontade é pensar um modo de educar que seja capaz de ultrapassar os limites das estruturas sustentadoras do ensino.

Sou professora por gosto. Talvez porque ache imprescindível, para o sentido de viver, o ato de professar publicamente meus assombros, minhas perplexidades, meus temores, mas, sobretudo, minhas crenças e esperanças. O que me move cotidianamente a exercer este ofício é o desejo de despertar o outro para as perguntas adormecidas que o farão caminhar na busca das respostas capazes de oferecer razões para viver e esperar.

Trazer à memória coletiva o professor, no dia 15 de outubro, em plena primavera, é de bom-tom. Isto porque a primavera é o tempo do espocar da beleza das flores, do contraste das cores e dos cheiros que nascem das sementes espalhadas em campos, praças e jardins. Professar ou educar, por sua vez, é também um ato de semear desejos e sonhos e, por isso, é sempre um ato de amor e de esperança.

Por esta razão, apesar de tudo que possa trabalhar em contrário, quero continuar professora, pelo simples prazer de olhar nos olhos de meus alunos e ver o brilho que revela o assombro fundante, primordial, de quem descobre as sendas e as veredas que conduzem a mundos ainda não conhecidos, mas grávidos de possibilidades e promessas.

Quero continuar professora porque gosto de gente, mais do que de coisas, e porque acredito que, junto com outras gentes, é possível saborear a alegria de plantar sementes que germinarão amanhã. Educar é um trabalho de jardinagem. O professor planta, rega, aduba e descansa seu coração enquanto espera a floração que chegará na primavera.

Que nesta e em outras primaveras, os professores, amantes de seu ofício, possam se encantar e se surpreender, muitas vezes, com a beleza das flores que aparecem magicamente em lugares e situações muitas vezes impensáveis e improváveis.

Que nesta e em outras primaveras continuem professando, no seu existir, a fé na vida que não se deixa abater por esquemas mal-elaborados, estruturas deficientes, salários malpagos, pessoas mal-amadas. Que nesta e em outras primaveras, como construtores do amanhã, possam sempre semear desejos de justiça, de alegria, de reconciliação, de solidariedade e de paz no coração de quantos passem por seus caminhos.