Ter um intérprete de libras ruim é melhor do que não ter nenhum?

“Um intérprete sem condições de atuar, pode distorcer completamente uma mensagem, confundir o público surdo, ou até mesmo transmitir informações incorretas”


Por Gabriel Pigozzo Tanus Cherp Martins, tradutor intérprete de Libras/Língua Portuguesa

16/01/2026 às 07h38

Fui desafiado por um colega de trabalho a escrever sobre essa temática e não me furtei. Quem me conhece, sabe que não é do meu feitio apontar o dedo para alguém ou julgar as competências interpretativas e tradutórias dos demais colegas, afinal, todos nós temos nossas limitações. Mas uma coisa é certa: desde início dos anos 2000 há uma crescente demanda por intérpretes de Libras em virtude das legislações vigentes, das garantias de direito dos surdos sinalizantes e das lutas dos movimentos surdos e da própria categoria de Tradutores e Intérpretes de Libras Língua Portuguesa (TILSP).

Dessa forma, em nosso tempo, as questões, discussões e reflexões sobre a inclusão têm adquirido grandes proporções e, isso de alguma forma nos faz questionar o compromisso para com a acessibilidade. Como ela tem sido encarada? Será que agências e pessoas têm levado essa questão a sério? Ou é só apenas mais uma formalidade? No caso dos surdos sinalizantes, a presença de um TILSP, em espaços públicos, instituições e eventos é, sem sombra de dúvida, um avanço, uma conquista. No entanto, surge um dilema incômodo: será que ter um intérprete de Libras mal preparado é, de fato, melhor do que não ter nenhum? À primeira vista, a resposta pode parecer óbvia. Afinal, um profissional — por pior que seja — ainda oferece algum nível de mediação comunicativa, certo?

Mas, ao olharmos mais atentamente a essa situação, a presença de um TILSP despreparado pode acarretar danos graves e, até irreversíveis. Em vez de promover uma inclusão, garantida por lei, essa pseudo presença simbólica e formal, pode reforçar o processo de exclusão e desinformar, comprometendo as informações que os surdos sinalizantes buscam e, muitas vezes, passando a impressão de que está tudo resolvido. Ou seja, que existe inclusão e acessibilidade.

A questão é que o problema começa lá na base (e nós já falamos isso em outro texto publicado neste periódico), ou seja, a precária formação e a desvalorização profissional, além do desconhecimento por parte de “quem manda” sobre a função do TILSP e sobre o que é incluir um surdo sinalizante. Os TILSP frequentemente enfrentam jornadas excessivas, falta de reconhecimento institucional e salários que não condizem com o contrato a ser estabelecido. Em muitas contratações, o principal critério não é a qualificação e sim o custo. Ou seja, a inclusão e a acessibilidade para os surdos e “medida” financeiramente, ou seja, não é um direito e sim um gasto. Neste interim, pseudo profissionais, sem o domínio da Libras, são colocados a em situações de uma importante responsabilidade.

Um intérprete sem condições de ATUAR, pode distorcer completamente uma mensagem, confundir o público surdo, ou até mesmo transmitir informações incorretas. Pior ainda: pode impedir que a pessoa surda participe efetivamente de decisões que afetam sua vida. Essa situação nos mostra um desconhecimento sobre o que é incluir. A inclusão de surdos não se resume a “colocar alguém para fazer gestos”. Incluir é garantir, a ela, o direito a informação, comunicação e conhecimento. Fingir acessibilidade, com profissionais mal preparados é o mesmo que pintar uma rampa de acesso sem inclinação e colocar um piso tátil passando entre uma árvore, ou seja, esteticamente inclusivo, funcionalmente excludente.

Ao contratar ou aceitar um profissional despreparado com o pretexto de “é melhor do que nada”, naturalizamos a precarização do trabalho desses profissionais e colocamos a comunidade surda em segundo plano. A verdadeira inclusão começa quando reconhecemos que a comunicação é um direito, não um favor. E que esse direito não pode ser tratado de qualquer jeito. Um profissional despreparado, longe de ser uma solução, pode ser uma barreira tão cruel quanto a ausência total de comunicação. A comunidade surda merece mais do que presença simbólica — ela merece respeito, competência e inclusão de verdade. O mesmo vale para os Tradutores Intérpretes de Libras/ Língua Portuguesa.

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