Uma brincadeira perigosa


Por DEMÉTRIO VENÍCIO AGUIAR Engenheiro da Cemig

15/08/2013 às 23h00

Soltar pipa é uma brincadeira muito popular no Brasil, mas os números da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) de janeiro a junho deste ano mostram que essa prática é lesiva à população: ela foi responsável por 1.739 ocorrências de interrupção do fornecimento de energia elétrica, prejudicando 530 mil consumidores.

O uso do cerol – mistura cortante feita com cola, vidro e restos de materiais condutores – é um dos principais causadores dos desligamentos, pois geralmente causam o rompimento dos cabos de energia quando entram em contato com a rede elétrica. Além disso, muitos curtos-circuitos são provocados pela tentativa de retirada de papagaios presos aos cabos.

Para piorar a situação, uma novidade vem agravando os problemas e os riscos: é a linha chilena, tipo de cabo cortante feito em escala industrial, portanto, mais refinado e com materiais mais abrasivos do que o cerol. Esse tipo de linha é muito mais cortante do que o cerol comum, e, infelizmente, é possível adquirir este material de origem estrangeira pelo mercado paralelo e até pela internet.

Somente em julho, outros 284 mil clientes ficaram sem luz devido a 909 interrupções por esta causa. Mais de 117 mil são da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) devido a 402 interrupções. No primeiro semestre deste ano, na RMBH, foram registrados 829 desligamentos provocados por pipas na rede elétrica.

No ano passado, foi registrado um acidente fatal com pipa na rede elétrica de Minas Gerais. Já em 2011, a Cemig registrou dois acidentes com vítimas de ferimentos causados pelo contato de papagaios com cabos energizados. Um tipo de acidente comum, nessas situações, são com motociclistas, que muitas vezes têm o pescoço cortado com essas linhas.

A maioria dos acidentes acontece quando o papagaio fica preso na rede elétrica e as crianças tentam retirá-lo utilizando materiais condutores, como pedaços de madeira ou barras metálicas. O contato com a rede elétrica pode ser fatal, além do risco de queda em função do impacto causado pelo choque elétrico. Nesses casos, as consequências mais comuns são traumatismos causados pelas quedas e queimaduras graves causadas por choques.

Além disso, muitas crianças amarram as pipas com arames e fios. Isso é um grande perigo, uma vez que esses materiais são altamente condutores de energia e acabam sendo energizados quando tocam os cabos de energia. O uso do cerol, ainda, pode transformar uma simples linha de papagaio em um material condutor e provocar choque elétrico ao entrar em contato com a rede.

Em 2012, mais de 2,7 milhões de consumidores em todo o estado foram prejudicados com desligamentos causados por papagaios presos nas linhas de distribuição. Durante o ano, foram registradas 5.019 interrupções no fornecimento de energia provocadas por pipas, representando 1,5% do total.

Mais da metade dos desligamentos (3.064) ocorreu exatamente durante o inverno, entre junho e setembro, atingindo 1.558 mil consumidores. Em 2012, o maior número de interrupções causadas por papagaios na rede elétrica, 2.211 ocorrências, aconteceu na RMBH.

Além dos prejuízos causados pela falta de energia, os pais precisam estar cientes para os riscos à segurança que a soltura de pipas pode trazer quando praticada próxima à rede elétrica. Por isso, a população deve estar atenta a essa brincadeira, que pode ser muito perigosa para a vida da própria criança ou de terceiros.