Ainda existe intolerância


Por RODRIGO GALDINO

14/04/2011 às 07h00

Programas humorísticos não costumam ser politicamente corretos. Mas as declarações do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), em sua recente aparição no programa CQC, da Band, ultrapassaram todos os limites. Bolsonaro colocou negros, homossexuais e promíscuos no mesmo balaio. E reacendeu o debate sobre o racismo e a homofobia no Brasil. Muito antes das declarações do deputado, os episódios de agressão a homossexuais na Avenida Paulista, em São Paulo, já denunciavam uma triste realidade: ainda cultivamos a intolerância.

Num mundo em que as redes sociais nos deixam cada vez mais conectados e em que a diversidade (de pensamento, de credos e até de sexos) é alardeada em alto e bom som, pensar em racismo e homofobia parece contraditório. Afinal, empresas e personalidades reiteram, diariamente, que é preciso respeitar o próximo; amar o próximo. Mas a declaração de Bolsonaro ressoa em muitos cantos do país, pois, infelizmente, suas preconceituosas palavras e atitudes refletem o pensamento de parte dos brasileiros. Seus eleitores, talvez.

Nos dias de hoje, o racismo continua sendo negado. E o mito da democracia racial ainda persiste. Afinal, dizem alguns, eu até tenho empregados e amigos negros!. E sobre a homossexualidade, esta é teoricamente aceita, desde que em território alheio. Como disse Bolsonaro, em resposta à Preta Gil, não corro esse risco porque os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu. Não se sabe se a infeliz declaração se referia ao relacionamento com negros ou com gays. Pouco importa.

Mas qual será o motivo de tamanha intolerância num país deveras multicultural como o Brasil? Formular respostas não é fácil. Mas uma delas talvez seja a dificuldade que nós, brasileiros, temos em encarar o preconceito de frente. Certos assuntos, como racismo e homofobia, ainda são considerados tabus em grande parte das famílias brasileiras, o que ajuda a perpetuar mitos como a democracia racial e a igualdade de gêneros. Já passou da hora de admitirmos que a nossa igualdade não é tão verdadeira assim.

Segundo o Grupo Gay da Bahia, em média dois homossexuais são assassinados por dia no Brasil. Já os casos de racismo, apesar de não contabilizados, também são expressivos. Recentemente, um estudante da Universidade Federal do Pampa teve que se mudar do Rio Grande do Sul. Ele foi vítima de racismo numa abordagem policial e, após denunciar o fato, passou a sofrer ameaças de morte. Em Londres, as bananas lançadas em campo, na direção do jogador Neymar, comprovam que este crime ultrapassa fronteiras e culturas.

Infelizmente, declarações como as de Bolsonaro refletem a opinião de muitas pessoas que, desacostumadas à democracia, acreditam que ser diferente é anormal. São estas as mesmas pessoas que são contrárias às políticas de cotas para negros. E as mesmas que reagem com fúria só de pensar que o Governo pensa em distribuir cartilhas para prevenir a homofobia nas escolas. Enquanto continuarmos com essa cultura hipócrita, a intolerância irá persistir. Afinal: será que não existem gays no Brasil? Nem negros historicamente discriminados?