Violência psicológica: veneno lento que mata mulheres
Vivemos em uma sociedade que ainda romantiza comportamentos abusivos, que chama controle de ‘cuidado’, ciúme de ‘prova de amor'”
Quando falamos em violência contra mulheres, a imagem que surge é quase sempre física: hematomas, marcas, agressões explícitas. Mas existe uma violência silenciosa, invisível aos olhos, que destrói de dentro para fora: a violência psicológica. Ela não deixa cicatrizes na pele, mas imprime feridas profundas na mente, na autoestima e na dignidade. E, justamente por ser invisível, é muitas vezes ignorada, minimizada ou até naturalizada.
Violência psicológica não é “briga de casal”, não é “ciúme exagerado”, não é “coisa de relacionamento”. É controle, humilhação, chantagem emocional, isolamento social, manipulação. É a palavra que desqualifica, o silêncio que pune, a ameaça velada que aprisiona. É o parceiro que diz “ninguém vai te querer”, “você não serve para nada”, “se sair, vai se arrepender”. É a tentativa sistemática de reduzir a mulher à dependência, de apagar sua autonomia, de fazê-la acreditar que não existe vida fora daquela relação.
O problema é estrutural. Vivemos em uma sociedade que ainda romantiza comportamentos abusivos, que chama controle de “cuidado”, ciúme de “prova de amor”. Essa lógica patriarcal legitima práticas que, na verdade, são violência pura. E quando a mulher denuncia, enfrenta descrédito: “Mas ele nunca te bateu”, “Isso não é crime”, “Você está exagerando”. Está, sim, na lei — a Lei Maria da Penha reconhece a violência psicológica como forma de agressão. Mas está, sobretudo, na realidade, onde milhares de mulheres sofrem caladas porque não conseguem nomear o que vivem.
As consequências são devastadoras: depressão, ansiedade, perda de identidade, isolamento, até suicídio. E tudo isso começa com palavras, gestos, atitudes que parecem pequenas, mas que, somadas, constroem uma prisão emocional. É preciso romper o silêncio, desnaturalizar o abuso, educar para relações saudáveis. É preciso responsabilizar quem pratica e acolher quem sofre. Porque violência psicológica mata — não com armas, mas com o veneno lento da destruição emocional.
Enquanto continuarmos tratando essa violência como “menos grave”, estaremos perpetuando um ciclo que corrói vidas e alimenta outras formas de agressão. A ferida invisível é tão letal quanto a visível. E só será curada quando entendermos que respeito não é controle, que amor não é posse, que liberdade não é ameaça. Até lá, seguiremos contando histórias de mulheres que perderam a voz — e, muitas vezes, a vida — para um agressor que nunca levantou a mão, mas destruiu tudo com palavras.
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