Barbosa, de Ruy a Joaquim


Por JACOB PINHEIRO GOLDBERG Advogado, doutor em psicologia, assistente social e escritor

13/12/2012 às 07h00

O primeiro ensaio que escrevi sobre direito levou o título de A discriminação racial e a lei brasileira, com prefácio de Eduardo de Oliveira (1966, Casa de Cultura Afro-brasileira, Ed. Luanda). No lançamento, o Grupo Musical de Solano Trindade marcou uma noite histórica de afirmação contra o apartheid que cinde a nação, desde sempre. E, agora, dediquei meu último livro, O direito no divã, à memória de Luiz Gama, a figura majestática que foi o rebelde negro, filho escravo da rachadura, que contestei, pela revista Kaza, na entrevista Nem casa grande, nem senzala.

Isto para refletir o significado que emprestei ao episódio que conduziu Joaquim Barbosa à presidência do Supremo Tribunal Federal. Foi em Juiz de Fora, cidade onde passei a infância e adolescência, berço natal, que fui embalado pela Maria, minha segunda mãe, a negra que me consolava nas noites de medo e solidão, nas quais dona Fanny e seu Luiz iam ao Cine Central, assistir aos filmes de guerra, em que os judeus foram chacinados. Portanto, a saga do self made man, o jurista, erudito e invocado Joaquim Barbosa, mesclou, desde o início, para mim, no imaginário e no simbólico, os mitos icônicos do cowboy no saloon ou o samurai de Kurosawa.

Tem sido um exercício desafiante entender esta cavalgada que ultrapassa, de longe, o processo popularmente denominado de mensalão, atingindo a dimensão de uma epopeia e o desempenho do herói, no sentido carismático da expressão.

E quando o torneio quase medieval, nas dialéticas da cultura latina forense, espelha a dor de alma (weltschmertz), na coluna do emblemático cavaleiro sem medo e sem mácula, na ordem de nobreza, ressuscita a imagem da Águia de Haia, Ruy Barbosa que, em seu tempo, topou sacudir o país, e, internacionalmente, inclusive na defesa de Dreyfuss, que Emile Zola, na França, incendiou com seu J’accuse.

Nelson Mandela, no rugby que supera os traumas; Obama, que inclui o excluído, numa surpreendente ultrapassagem das divisões e do racismo; desembocam na figuração de nosso Joaquim que, sem dúvida nenhuma, representa por si só, no talento, no vigor e na dor, a inserção do melhor de nossa alma negra na tribo brasileira.

Com Foucault e Frantz Fannon, para arrematar este homem, demasiadamente humano, na implacável trajetória de seu sucesso carismático, dos escombros escandalosos, saberá desenhar uma nova moralidade, contemplando em José Dirceu e Genoino (que enfrentaram a ditadura) a pena e a pena.

Matéria que exponho (Stanford, Cracóvia, Lublin) no meu próximo livro, Sentido e existência, ao reportar-me ao conceito da dupla verdade (Cardeal Belarmino, Julgamento de Galileu).