Corruptores e ação política


Por PAULO DINIZ - PROFESSOR E DOUTORANDO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

12/04/2012 às 06h00

Jornalistas estrangeiros que acompanham os acontecimentos do Brasil devem encontrar dificuldade para traduzir as sutilezas da língua portuguesa e da vida em nosso país. Quando o assunto é política, a dificuldade deve ser ainda maior: em 2004, a revista norte-americana Time passou por tal dilema ao descrever o pivô do primeiro escândalo do governo Lula; optou pela tradução literal, tratando o personagem por Charlie Waterfall (ou seja, Carlinhos Cachoeira).

Quando ganhou destaque no noticiário pela primeira vez, o bicheiro goiano Carlos Augusto Ramos – nome de batismo – divulgava haver sofrido extorsão dois anos antes por parte de Waldomiro Diniz, que havia se tornado Subchefe de Assuntos Parlamentares da Presidência da República com o início do Governo Lula. Os recursos, segundo o bicheiro, deveriam financiar campanhas do PT, porém não mencionava que, como retribuição, receberia facilidades em licitações do Governo. Passado o impacto inicial, vieram os desmentidos e a exoneração de praxe, perdendo-se no vazio muitas perguntas sobre a profundidade das relações entre esses personagens. Apesar de Waldomiro ter sido alvo de um processo, nada mais se falou sobre Cachoeira.

Passados oito anos, ressurge em grande estilo Charlie Waterfall, desta feita, íntimo de um senador do Democratas – esteio moral da oposição – o também goiano Demóstenes Torres. Ainda está sendo descoberta a natureza dos negócios realizados por Cachoeira, mas sabe-se que ele centralizava uma rede de informações sobre atividades policiais e parlamentares, sem que esteja claro o uso dado a tais informações.

O que importa perceber, inicialmente, é que o ecletismo político de Cachoeira parece não ter limites: vai do PT ao Democratas; do núcleo do Governo à liderança da oposição. Também é importante destacar que sua reincidência em negócios escusos indica total impunidade, e a permanência junto ao meio político é sinal de uma aposta – que se mostrou acertada – na falta de valores que permeia esse ambiente. São fatos demasiado evidentes para serem ignorados, reforçando o antigo clichê segundo o qual não basta punir os corruptos, é preciso anular os corruptores.

Nesse contexto, não é saudável para a democracia brasileira que seus partidos e homens públicos façam uso político de escândalos como o de Carlinhos Cachoeira. Tais ocorrências não são exclusividade de nenhuma corrente partidária e, diferente do que se acredita no meio político nacional, o erro de alguns não inocenta o dos outros; pelo contrário, os potencializa. Quando apontam o malfeito alheio com o intuito de diminuir o adversário, os políticos brasileiros acabam tirando de cena o personagem principal, o corruptor, eterno inventor de esquemas e explorador das brechas da lei. Enquanto os partidos se acusam irracionalmente, rebatendo acusações com outras acusações, os Charlies saem discretamente de cena, para continuar a agir nas sombras, recrutando homens públicos de caráter fraco. Definitivamente, não é com esse ímpeto destruidor que se constroem condutas éticas na política.