‘Yes, we can’


Por RITA DE CÁSSIA DE A. ALMEIDA

12/04/2011 às 07h00

Yes, we can. Esse foi o lema da campanha presidencial de Barack Obama. A intenção era óbvia: transmitir uma mensagem de esperança e motivação endereçada ao povo americano, mas também não deixou de ser um recado ao mundo, uma forma de reafirmar o poderio americano depois de uma década de desgastes e crises. Obviamente que, mesmo com todos os abalos políticos e econômicos sofridos nos últimos anos, os EUA ainda se mantêm como a nação mais poderosa do mundo. Todos sabemos o que podem os EUA. Entretanto, o que esperávamos com o final da Era Bush é que os Estados Unidos começassem a entender algo a respeito do que eles não podem.

Primeiramente os EUA não podem continuar se baseando na ideia de que o que é bom para eles é bom para outros povos ou para o mundo. Tal premissa, etnocêntrica e prepotente, lamentavelmente reafirmada por Obama, impede que os Estados Unidos entendam que não podem tratar os demais países como meros coadjuvantes de uma cena onde eles são o personagem principal. Os EUA não podem manter medidas protecionistas que resguardam seus produtos e provocam concorrência desleal no mercado mundial, prejudicando os demais países. Não podem simplesmente desconsiderar ou desrespeitar os protocolos internacionais assinados para tentar reduzir a poluição e a devastação do meio ambiente simplesmente para preservarem sua própria economia. Não podem manter embargos econômicos, como o de Cuba, por exemplo, sob a justificativa de não concordarem com esta ou aquela concepção ou diretriz política e econômica. Não podem desrespeitar a soberania de países independentes sob quaisquer alegações, não podem tratá-los como se fossem o quintal de sua própria casa. Não podem mais defender e sustentar a ideia de que é possível resolver divergências ou impasses na política mundial por meio de intervenções militares. Não podem promover e sustentar guerras, especialmente sob a falsa alegação de que são em nome da liberdade, da democracia ou da paz.

Todos sabemos que os EUA e o povo americano podem muito, mas estamos especialmente interessados em que eles compreendam que, ainda sim, não podem muitas coisas. A vitória de Obama representava para o mundo a derrocada do conservadorismo de direita de Bush e o fim de uma política externa carregada e de intolerância política e religiosa, arrogância e violência. Obama é, sem dúvida alguma, bem mais simpático e carismático que Bush e tem um discurso bem mais ameno. Entretanto, na prática, infelizmente, ele não tem feito muito diferente de que seu antecessor. Continua preso à sua máxima de campanha que diz que sim, os americanos podem, esquecendo-se de considerar que os outros povos também podem: os líbios podem, os palestinos podem, os mexicanos, os brasileiros, os cubanos, os iranianos, os russos e os coreanos também podem. Esperávamos que, com Obama, os EUA deixassem de lado a ideia de que o mundo gira em torno deles, mas parece que ainda não foi desta vez.