Filosofia para ver e ouvir
Quando dizem que o pior cego é aquele que não quer ver, fico imaginando como seria fantástico se, de uma hora para a outra, a ciência, sem restrições, descobrisse a cura para a cegueira, devolvendo a visão plena ao cego. A verdade é que sempre experimentei profunda tristeza por esse tipo de deficiência física. Aquele olhar sem rumo, um andar inseguro, a dramática dança em ziguezague, dentro de uma noite fria, sem aurora nem pontos coloridos, sangra o pensamento de quem o vê. Mas a natureza é sábia! Há compensações gratificantes. A felicidade não tem cor, e a verdade não aparece compulsoriamente, apenas porque se acendeu uma lâmpada e se fez luz.
Lamentável é constatar que há cegueira demais na conduta de muitos que veem. A cegueira física pode privar alguém de explorar, sem tropeços, algum espaço físico, mas a cegueira interior inviabiliza o reconhecimento do espaço moral e do crítico-reflexivo. O cego vê muito mais do que se imagina. Embora não seja nada fácil a sua vida, o mais difícil mesmo é conviver com pessoas que veem fisicamente, mas que sofrem de tamanha obscuridade mental diante da vida.
Há, é verdade, momentos de fraqueza. Ninguém é sábio, santo e forte o suficiente para evitá-los. É preciso determinação para superá-los. Maturidade tem preço! Exige um mínimo de serenidade, de vontade e de autodomínio, mesmo porque o egoísmo, fiel companheiro da primeira idade, e a arrogância juvenil teimam sempre em persistir no guarda-roupa renovado pelo tempo. Não são poucos os que traçam linhas invisíveis sobre o vento, os que correm de costas contra o tempo nem aqueles que apontam para uma nuvem de fumaça, onde colocaram, quase em segredo, os seus ideais.
A vida não pode se resumir a uma grande mentira. Ao contrário, pode e deve ser uma grande aventura, destemida, na qual a alegria do crescimento tem de ser computada. Seres humanos, racionais e conscientes, são chamados a grandes realizações. Uma fisionomia abatida, muitas vezes, revela o peso dessa vocação frustrada. Há também os que tecem sombras. Outros que se vestem com retalhos de pesadelos e coroam-se com o nada. São os piores cegos, porque não querem ver. Parar para pensar ou rever, rebobinado, o filme do caminho percorrido é incômodo. De repente, percebe-se que não convém continuar indo como se vinha, aos trancos e barrancos. Urge parar na oficina da meditação esse desajeitado modo de viver, azeitar melhor as engrenagens da razão, escutar com diligência suas propostas, censuras e aconselhamentos. Além de cego, não se pode ser surdo.
Há uma voz que clama do interior. O que se está fazendo? Para onde se está indo? Não toque a vida assim como um instrumento desafinado. É sempre possível uma visão mais otimista da existência, mesmo tendo consciência do seu lado dramático. Nesse estágio probatório da existência, de si tão curto, nada melhor do que contar com alguém sempre pronto a elevar o astral de quem tropeça na cegueira da própria imaturidade. As dificuldades aconselham-nos a abandonar tal empresa e a adotar, de forma banal, um rascunho de vida, circulando por aí, como tantos outros, ouvindo a banda passar.
Sozinho, sem o apoio nem a solidariedade de quem vai junto, é difícil enveredar por um caminho novo, menos transitado, e buscar uma perspectiva renovada. Mas não é menos verdade que, na vida, a gente tem que fazer trilho. De tanto passar, o caminho aparece. Só se vê bem, se se vir bem o limiar da aurora e só se ouve bem, se se ouvir bem o rumor do novo. Faz lembrar o poeta: só se vê bem com o coração (a razão mais profunda), pois o essencial é invisível aos olhos. O que importa não é tanto o que se vê ou o que se ouve, mas o que alguém é capaz de fazer com o que ouve e vê.










