O dia em que o reitor chorou


Por ISMAIR ZAGHETTO

11/10/2011 às 07h00

Nos meus tempos de jovem repórter e editor de jornais dos Diários Associados, conheci bem de perto o desempenho de reitores da Universidade Federal de Juiz de Fora. Conheci-os bem. Na verdade, tinha a obrigação profissional de fazê-lo.

A produção dos jornais se fazia à razão de setores ou assuntos. Só depois viriam as editorias específicas. Na estrutura editorial do Diário Mercantil, ficava a meu cargo cobrir tudo relativo à UFJF. Tive o privilégio de estar bem próximo aos eventos de sua criação, implantação e consolidação como prestigiosa instituição no contexto das universidades públicas brasileiras. Sempre entre as melhores. Com todos os méritos.

Vivi seus bons e seus difíceis momentos. A entrevista com o seu primeiro reitor, o saudoso professor Moacyr Borges de Mattos, por exemplo, foi feita num tempo em que toda sua estrutura físico-administrativa se resumia a uma sala no prédio do Banco Mineiro da Produção, parte baixa da Halfeld, cedida pelo governador Magalhães Pinto.

Tive, nesse processo, que acompanhar vereadores desinformados e sem nenhuma visão de futuro criarem obstáculos à doação pelo município do terreno onde seria construída a cidade universitária – a popularização da expressão campus viria depois. É uma loucura construir a universidade naquele fim de mundo. Ouvi isso e muitas outras tolices. Provavelmente, mais desinformação que intenção dolosa.

Quando construía o campus, o não menos saudoso professor Gilson Salomão queixava-se das dificuldades internas, de viés político, para tocar o projeto. Em uma entrevista, em 1970, sentado na lâmina de um trator que terraplenava a primeira das quatro plataformas dos institutos, desabafou comigo, visivelmente emocionado: Você não imagina como tudo isso é difícil.

Essas reminiscências, nos 50 anos da UFJF, vêm à lembrança no instante em que assistimos, comovidos, ao reitor Henrique Duque de Miranda Chaves Filho chorar em dois eventos recentes: incorporação do Centro Cultural Pró-Música e lançamento do Memorial Presidente Itamar Franco. Lágrimas que não devem envergonhar ninguém. Recordo-me que o próprio Itamar, emotivo, não raro tinha dificuldades de se conter.

Antes de exibirem fragilidade, são lágrimas que revelam sensibilidade. Bom, num mundo onde tudo vai ficando frio, impessoal e descartável.