Recentemente, li uma crítica (antiga) a um dos livros da escritora Lya Luft, O silêncio dos amantes, mais especificamente dirigida ao conto homônimo, o último do livro. O crítico queixava-se da falta de explicação acerca do brutal assassinato que envolve uma das personagens, a mulher grávida, que é morta e tem suas vísceras, junto com a gestação que carrega, explodidas pelo assaltante. Se o leitor assiste a jornais ou os lê diariamente, deve estar se indagando, como fiquei eu.
Desde que li a crítica, fiquei a me interrogar sobre a cobrança do crítico: afinal, ele não sabe dos casos e casos em que a morte chega, trazida pelo outro na lâmina de uma faca, no cano de revólveres, no veneno de um copo e em tantas outras maneiras (re)contadas em todas as imprensas de que se tem notícia e veiculam notícia? Pois bem, por que o leitor do conto não pode preencher ele mesmo a lacuna da ficção com dados reais?
De fato, a frieza, a brutalidade, a imagem da cena descrita no livro de Luft choca o leitor, diante do retrato do matador, que a narrativa lhe possibilita entrever. E como pensamento não tem cerca, lendo, amarramos umas coisas às outras e fazemos a pergunta: desenhado o retrato, que perfil criamos para o personagem assassino?
A morte está nas entranhas do matador, e tudo o que nela assombra aos sem intimidade com ela é o que dela o aproxima. Confesso ao leitor que não sei se seria de bom-tom propor a enumeração dos elementos que, arrisco eu, estreitam laços entre a morte e um assassino, à medida que a proposta pode causar náusea em todos nós. Poupo o leitor do enjoo que sinto!
Mas o fato é que os matadores existem, e ficamos derrotados quando nossa capacidade de raciocinar não explica os terrores de uma mente que sente prazer em matar, em causar dor profunda, em esmagar o conforto de viver de quem fica, como esmaga a roda de um trem tudo o que está sobre o trilho, enfim, em usurpar o que de mais precioso os seres humanos têm. E a vida escorre de dentro da vida, por fora do mundo, para dentro da terra.
E escorrem também as lágrimas, vermelhas encarnecidas, indistintas do sangue que lavou o último suspiro dos vivos. E está aí o êxito do matador. Na cena que nos choca, assombra e aterroriza está todo o êxito do matador.
Notemos que mentes sombrias são metáforas, metáforas da realidade, antecipadas e descritas na ficção. E o incômodo gerado pelo texto de Luft? O assassino não tem motivos para explodir a vítima? Ele confirma que sim, ainda que sejam para nós motivos absurdos, estapafúrdios, pois, ao mesmo tempo, tolos e frívolos.
Enfim, gosto sempre de recuperar a sabedoria popular, porque, tal como o nome indica, trata-se de sabedoria. Um assassino planeja, articula, dissimula e faz seu feito: O coração dos outros é terra em que ninguém vai. Os escritores de ficção nada mais fazem do que levantar fibra por fibra a tampa que esconde a alma humana.
Há silêncios em toda parte.











