O crime das bromélias
Desde menino, quando acompanhava papai, e ele se embrenhava pela mata à cata de orquídeas, que ele chamava de parasitas, podia notar a diversidade de plantas e flores por onde passávamos, na região do Bairro Borboleta. Ficava no chão, ao pé de uma árvore, enquanto ele subia para arrancar suas preciosidades: – parasitas com flores ou somente mudinhas, que ele jogava para mim, que as colocava no saco de aninhagem, cuidadosamente.
Notava que, agarradas às árvores, plantas com folhas serrilhadas, com uma flor única no centro, ora vermelha, ora cor-de-rosa, se destacavam, e papai me explicava que eram bromélias, plantas que serviam de fonte de água para formigas, abelhas, marimbondos, borboletas, joaninhas etc., e que, por isso, não as arrancava de suas bases, deixando lá para suas funções primárias.
Desde então, passei a respeitar muito tais plantas e observar como a formação de suas folhas juntinhas guardavam água por muitos dias sem chuva e onde os pequenos insetos mitigavam sua sede e garantiam sua sobrevivência.
Depois de muitos anos, passei a cuidar de bromélias em meu quintal. Elas, plantadas no chão ou penduradas em vasos de xaxim, protegidas pela sombra de um pé de lima e de uma mexeriqueira, além de sua beleza, garantiam a fonte de água para lindas borboletas, joaninhas e marimbondos que procuravam ali se fartar d’água.
Digo procuravam, porque tudo acabou. Um agente de saúde, procurando focos do famigerado mosquito da dengue, passou pelo meu quintal e, vendo as minhas bromélias, foi até elas, recolheu material e fez sua análise. Não havia larvas nem resquício do mosquito assassino em minhas bromélias, mas aconselhou acabar com elas, visto que poderia um desavisado mosquito Aedes aegypti ali botar seus ovos. E aí então, já se sabe o que se segue: o ovo eclode, vira larva e o mosquito pica uma pessoa que, sem tratamento, vem a óbito.
O funcionário foi embora, e fiquei matutando sobre as vantagens e/ou desvantagens de manter minhas bromélias. Quais vidas seriam mais valiosas? Lembram-se do filme A escolha de Sophia? Pois é, uma tarde, após o trabalho, munido de um enxadão, enfileirei os vasos e plantas arrancadas do chão e passei a golpeá-los com a ferramenta. Com o coração apertado, sentindo-me um criminoso, ainda destruí algumas com minhas mãos, arrancando folha por folha a formação perfeita da planta, que me retribuiu com um largo arranhão pelo braço. Arfando, juntei os destroços amontoando com outros matos que havia capinado na véspera e deixei ao relento para morrer.
Aí está minha história. Será que procedi certo? Será que os insetos arranjarão outras fontes para beber água, por perto, na natureza?
Certo é que rarearam de meu quintal desde então. Depois os ambientalistas falarão das plantas, dos insetos e dos animais em risco de extinção. Enfim…










