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Sobre ser e estar

“Ao mesmo tempo em que a ansiedade ameaçava bater na porta, a pandemia me trazia uma nova rotina e, com ela, ensinamentos disfarçados de ‘o novo normal’”


Por Bruna Silva, graduanda em Jornalismo pela Estácio JF

10/10/2021 às 07h00

A máscara, o álcool gel. É só uma gripezinha, são só alguns dias em casa. Os aniversários, horas em uma única rede social. Militância, fofoca, fadiga digital, um tempo nas notícias. O tédio, os filmes que vi e revi, as músicas que ouvi, os livros que li, os inúmeros deliveries que pedi, quando a vontade era sair para comer fora. Home office, aula on-line, a incerteza de rever os amigos, as chamadas de vídeo que aproximam, as lives que fazem dançar. O sol na varanda, a convivência, os sintomas, o negativo, a perda, a dor, o medo, o pânico, a insônia, a terapia que cura. A alegria, a ansiedade, a vacina e o medo de agulha. Primeira dose, segunda dose e mais uma dose de esperança, por favor.

Tendo em vista que a palavra pandemia tem origem no grego pandemías e significa “todo o povo”, podemos considerar que ela possa vir a ter significados e ensinamentos diferentes para cada pessoa. Confesso que sair de casa após meses de isolamento me assustou um pouco, pois dava para ver o medo no olhar de todos e as viradas de olhos aos que estavam sem máscara. Logo eu, que costumava me demorar nos abraços, tive que aprender a dança dos cotovelos tentando se encontrar. Daqui eu senti falta do calor humano. Quem estava a dois metros de distância de mim também sentiu.

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Ao mesmo tempo em que a ansiedade ameaçava bater na porta, a pandemia me trazia uma nova rotina e, com ela, ensinamentos disfarçados de “o novo normal”. Aprendi que trabalhar de pijama pode ser legal. Cozinhar pode ser relaxante. Aprender um novo idioma pode ser gratificante. Que informação demais às vezes não faz bem. Vídeos de gatinhos curam qualquer dor. Se cuidar não é só skincare. Estar a sós consigo mesmo pode ser libertador e reconfortante. No fim, não é sobre estar em casa, é sobre ser casa. Já dizia Marcelo Camelo em Três Dias: “Se você ficar sozinho, pega a solidão e dança”. E eu, que nem sei dançar, dancei como se não houvesse amanhã.

A vida continua. Aprendi que, por mais que não pareça, não há nada como um dia após o outro. E desistir nunca deveria ser uma opção, porque é necessário chorar e sorrir ao mesmo tempo. A dor da perda precisa ser sentida. Mas a despedida não precisa ser um adeus, se, em contrapartida, ela pode ser um até logo. Muita tristeza pelos que partiram. Aos que ficam, como diz a canção: “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”.
E não temos mesmo!

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