O poder se move


Por JORGE SANGLARD Jornalista e pesquisador

09/08/2013 às 07h00

Em resposta ao clamor popular, a iniciativa da presidente Dilma Rousseff de se reunir com governadores, prefeitos de capitais e representantes de movimentos populares, tendo como objetivo a procura de uma unidade na busca da melhoria nos serviços públicos, é uma alternativa que precisa ser encarada para valer. O poder se move e dá mostras de que é preciso ouvir a voz das ruas. O debate da questão da mobilidade urbana nas grandes cidades brasileiras é essencial, principalmente com o advento de eventos de porte, como aconteceu com a Copa das Confederações, com a presença do Papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude, além da preparação para a Copa do Mundo em 2014 e para as Olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016. De fato, o Brasil acordou, e alguns setores nem tinham percebido. Não acordou só agora com as manifestações de rua. Na última década, o país avançou na inclusão social, enfrentou a crise econômica internacional sem se abater e dá sinais de que passou a ser respeitado no cenário internacional como economia emergente e como democracia estável.

Antes de receber governadores e prefeitos, a presidente abriu as portas do Palácio do Planalto para ouvir reivindicações de representantes do Movimento Passe Livre, que deflagrou em São Paulo os protestos para a redução das tarifas de ônibus. Essa abertura de diálogo foi promissora e fruto da maturidade democrática. O tão aguardado Plano Nacional de Mobilidade Urbana é um dos pontos-chave para aplacar o grito das ruas e para que as grandes cidades encontrem soluções para os problemas crônicos que atormentam o cotidiano da população. Outra questão é o apoio de governadores e prefeitos à Lei de Acesso à Informação, oferecendo mais transparência aos atos governamentais e administrativos e para o combate à corrupção. Outro ponto é a adesão ao Programa Brasil Transparente, formulado pela Controladoria-Geral da União (CGU). A melhoria nas políticas de saúde é também uma ação de emergência no país, carente de hospitais, de unidades básicas e de um atendimento digno e eficiente. Mas a diversidade de temas abordados não para aí e permite até o debate da reforma política necessária e urgente.

A ideia de um pacto entre os governos para a melhoria dos serviços públicos é imperativa neste momento. Afinal, o compromisso em transformar, de fato, o dia a dia dos brasileiros para melhor é uma responsabilidade de todos e deve ser compartilhado entre todas as esferas do poder. Ou o poder se move ou poderá ser tragado pela onda de insatisfação popular que toma as ruas. Portanto, é hora de debate sério e de mãos à obra.

O grito das ruas precisa ser dimensionado corretamente pelo poder em todas as esferas, porque a rejeição de grande parte dos políticos é crescente em todo o país, e não se consolida o Estado Democrático de Direito, uma conquista de todos os brasileiros, sem partidos representativos da vontade popular, sem sindicatos fortes e sem a efetiva participação da população na discussão dos destinos do país. A pronta resposta do Poder Público à insatisfação popular é uma necessidade urgente e pode ser uma das formas de dar resposta concreta ao impacto das manifestações e uma maneira eficiente para inibir qualquer radicalização de uns e outros que descambe para o vandalismo, o saque e o quebra-quebra, intoleráveis e inaceitáveis no Estado Democrático de Direito.