Trânsito religioso
O resultado da Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE, divulgado no mês de agosto, trouxe um panorama religioso do Brasil contemporâneo. Com relação ao contingente de católicos e evangélicos, a pesquisa não revelou grandes surpresas. O número de católicos encolheu de 74% para 68% no período de 2003 a 2009, e o número de evangélicos (protestantes e pentecostais) cresceu de 17,9% para 20,1% no mesmo período.
O dado mais emblemático e surpreendente desta pesquisa diz respeito ao número de evangélicos que não possui vínculo com nenhuma denominação religiosa, que passou de 0,7% para 2,9% nesses seis anos. São fiéis que não se prendem aos cânones religiosos de uma congregação específica, fomentando assim o intenso trânsito religioso existente no país atualmente.
Se antes a migração ocorria principalmente das igrejas tradicionais para as pentecostais, hoje se dá entre as próprias igrejas evangélicas. Um exemplo é a Igreja Mundial do Poder de Deus, do pastor mineiro Valdemiro Santiago (o religioso teve uma passagem por Juiz de Fora na adolescência), dissidente da Igreja Universal do Reino de Deus. Segundo a revista IstoÉ (edição de 24/08/2011), estima-se que 70% de seus fiéis vieram da igreja de Edir Macedo.
Este exemplo evidencia a existência de uma forte concorrência entre as congregações que em nada se difere do mercado de bens de consumo. E, para fisgar fiéis, elas se utilizam exaustivamente dos meios de comunicação de massa. Segundo estudiosos, os programas televangélicos, um dos carros-chefes dessas congregações, são grandes fomentadores do trânsito religioso.
Ao conceder entrevista para a IstoÉ sobre o resultado da pesquisa, a professora Sílvia Fernandes (da Universidade Rural do Rio de Janeiro) declarou que Os neopentecostais possuem uma particularidade: seus fiéis trocam de igreja como quem descarta uma roupa velha porque ela não serve mais. Cada novo censo reafirma uma realidade estarrecedora: a religião torna-se cada vez mais mercadoria. Como sentencia o célebre intelectual alemão Andreas Huyssen: Não há nenhum espaço puro fora da cultura da mercadoria, por mais que possamos desejar tal espaço. Nem o espaço religioso escapou.










