O feijão, o sonho e o petróleo


Por AZELINO CESAR DE LIMA Professor

06/11/2013 às 07h00

O feijão e o sonho é um romance de Orígenes Lessa publicado em 1938 e adaptado para a telinha por Benedito Ruy Barbosa em 1976. Contava a história do casal Campos Lara e Maria Rosa. Ele, escritor, poeta e professor, portanto, um idealista sonhador. Ela, dona de casa, pragmática. Sobreviviam do salário da docência, daquilo que ele escrevia e de pequenos trabalhos domésticos que ela executava para completar as finanças. Ele vivia na utopia e no mundo dos sonhos. Ela, na crua realidade da sobrevivência diária. Vida difícil a de fazer poesias em um país onde as pessoas não gostavam ou não sabiam ler. Missão complicada a de tentar ensinar e mostrar para todos aquilo que somente a sensibilidade de alguns consegue perceber.

Recentemente, discursos informaram à nação sobre o significado do petróleo encontrado abaixo do mar, na costa brasileira. Em horário nobre, bem no meio do pico da audiência televisiva, uma das falas com visível ufanismo dizia que os recursos advindos dos campos petrolíferos, estimados em aproximadamente R$ 1 trilhão, a serem captados nos próximos 35 anos, iriam ser usados na educação, o principal pilar para transformar o Brasil em uma grande nação. Outra dizia da prioridade para aplicação dos royalties do petróleo na melhoria do salário dos professores. Patético e tragicômico.

Patético, porque foi necessário descobrir um poço de petróleo para que os minguados salários dos professores e demais trabalhadores da educação fossem novamente relembrados, 75 anos depois da saga exposta publicamente por Orígenes Lessa. Tragicômico, porque esqueceram-se, conselheiros e marqueteiro, de que os brasileiros não precisam de 35 anos para disponibilizar a fabulosa quantia de mais de R$ 1 trilhão para manutenção e execução de suas políticas públicas. A sociedade brasileira, há muito tempo, paga esta mesma quantia, a título de impostos, em apenas um ano.

Em tempo: Campos Lara e Maria Rosa terminaram juntos e felizes, ainda que o filho, para orgulho do pai e tristeza da mãe, acabasse também se tornando um poeta. Menos mal.