O troglodita e o celular


Por LUÍS EUGÊNIO SANÁBIO E SOUZA Escritor

05/06/2013 às 07h00

O tio Dengo é um troglodita, diriam meus sobrinhos diante do espantoso fato de que eu não tenho um celular vivendo no século XXI. Que ilusão, diria eu, calmamente. Há 30 anos, quando eu era adolescente, meu poder de comunicação era fantástico. Através das enigmáticas ondas de 11 metros do radioamador, minha voz chegava a todos os cantos do globo terrestre, cantos que meus queridos sobrinhos nem sabem que existem. Hoje, apesar da magnífica funcionalidade, frequentemente os celulares transmitem conversinhas superficiais.

Minha antiga comunicação, porém, era uma notável fonte de cultura e de conhecimentos gerais. Quando a minha jovem voz chegava em um país, eu logo abria a enciclopédia para ler sobre os costumes do povo e sobre as características das cidades. Com isso, em vez de estar por dentro das fofoquinhas ligeiras tantas vezes exploradas através de um celular, eu contemplava as belezas do mundo e os seus mistérios. Assim, nota-se um paradoxo no nosso tempo presente, ou seja, o avanço da comunicação nem sempre gera o desejável avanço da cultura, do conhecimento e da educação.

É claro que os celulares superam as ondas curtas do radioamador, mas provavelmente os meus sobrinhos nem saberiam dizer, por exemplo, onde se encontra Viena. Trata-se, portanto, de um progresso tecnológico relativo, diante do qual devemos refletir sobre a lição de que a comunicação é para o homem e não o homem para a comunicação. Isso significa que, se os meios de comunicação não edificarem o homem, o homem tornar-se-á escravo deles, e isso não representa progresso. Tal lição não vale apenas para os tão desejados celulares, mas para a própria internet, que, apesar das incalculáveis vantagens e dos benefícios, às vezes tem provocado vícios e desagregações sociais e também familiares.

Na realidade, o tio Dengo não tem nenhuma aversão aos celulares. Os celulares são ótimos, úteis, e até fascinantes, mas atualmente ainda não preciso deles. Este artigo apenas visa despertar uma reflexão sobre a necessidade de usarmos os meios de comunicação de uma maneira mais edificante, nobre e salutar. No momento, sinto-me melhor como troglodita para assim me divertir com as amigáveis zombarias dos meus sobrinhos. Mas afinal, Viena é capital de qual país?

Ora, sobrinhos, consultem a internet através de seus celulares! Talvez alguns diriam que Viena é muito popular e fácil de descrever. Então, que tal descobrirmos os costumes e a cultura do povo de Djibouti? Ora, sobrinhos, não é jaboti; trata-se da République de Djibouti! Sabem onde fica? No Chifre africano. Mas este chifre nada tem a ver com aquele chifre que o garoto levou e que foi tão comentado via celular. É um chifre mais fascinante, interessante e grandioso. Vamos descobri-lo? Por fim, devo dizer que as indevidas generalizações presentes neste artigo devem ser perdoadas em nome do bom-humor!