Nas águas da filosofia


Por MÁRIO JOSÉ DOS SANTOS Professor universitário

04/08/2011 às 07h00

Já faz tempo, meditando sobre a filosofia, senti um arrepio quando pensei: e se Tales de Mileto, seu fundador, no século VI a.C., pretendendo reduzir a multiplicidade das coisas atestada pelos sentidos à unidade exigida pela razão não tivesse feito a pergunta que inaugura a Filosofia? Será que por trás dessa realidade extremamente diversificada, multiforme e multifacetada não haveria um único princípio do qual provêm e ao qual retornam todas as coisas? Em resposta à questão genuinamente filosófica (porque investiga a questão da origem), que pôs em dúvida o fundamento da cultura grega, à época, o Mito – para o qual tudo é divino, tudo o que acontece é obra dos deuses – disse que aquele princípio era a água.

Posteriormente, outros filósofos gregos, ainda na antiguidade, pré-socráticos, elegeram, como princípio primeiro, outros elementos: o ar, o fogo ou os quatro elementos, até então conhecidos, acrescentando a terra ou as partículas míninas indivisíveis, os átomos.

A princípio, do que me penitencio hoje, torcia o nariz ante tais hipóteses que imaginei ingênuas, infantis e insustentáveis. Isso durou até o momento em que Nietzsche esfregou no meu nariz torcido o correto entendimento do que propugnava o legítimo pai da filosofia; sanou minha ignorância e curou-me a cegueira.

Tales viu a unidade do ser e, quando quis exprimi-la, falou água (Nietzsche). Nesse momento nasce a filosofia, maior conquista da humanidade, forma mais elevada do saber(Aristóteles).

Um fenômeno totalmente novo e revolucionário que iria mudar o perfil, o rumo da Civilização Ocidental. Arrepio-me (novamente!) só em pensar! E se Tales, desacreditado das estórias divinas (o Mito) não tivesse buscado explicações naturais para os fenômenos também naturais? E se não desencadeasse com suas explicações puramente racionais uma nova perspectiva, que viabilizou, no futuro, a democracia, o banimento da inquisição, o Renascimento, o surgimento da ciência, a revolução francesa, o Iluminismo e tantos outros acontecimentos de caráter humanísticos (somando-se-lhe o Cristianismo, é fato) em nítido contraste com os (ainda hoje) regimes teocráticos, dogmáticos, violentos e desumanos, que não se beneficiaram ainda dessa reflexão crítica e inovadora, que liberta o ser humano da escravidão e da obediência cega a poderes inescrupulosos e erráticos?

Como pensar nos dois gigantes da nossa civilização, Platão e Aristóteles, dos quais todos os pensadores subsequentes são devedores, sem essa bolinha de neve que Tales fez deslizar, fluir e transformar-se nesse colossal mundo de conhecimentos que gerou riqueza, bem-estar, cultura e, sobretudo, liberdade?

Tales viu a unidade do ser. Não com os olhos físicos (pontifica Nietzsche), mas com os olhos da alma, da razão, do logos, da inteligência e, quando quis exprimi-la, falou água. É dessa outra água que nós aplacamos a sede do espírito.

A filosofia tem sido, portanto, a condição de possibilidade de um mundo melhor, luz que aquece e apazigua um ser humano inquieto diante de enigmas e mistérios com os quais a esfinge da vida o ameaça devorar.