Pensar na morte?


Por URIEL HECKERT Psiquiatra e professor universitário

02/11/2012 às 07h00

Cercamo-nos do Dia de Finados mais uma vez. Faz algum sentido? Convém nos atermos aos que já partiram? As lembranças trazem-nos lágrimas, mas remetem à nossa própria história de vida; e isso tem papel integrador em nosso psiquismo.

Uma pesquisa recente demonstra que pensar na morte traz benefícios. Nós precisamos de pausas. Elas nos permitem questionar o sentido que atribuímos aos fatos da vida. Podemos, assim, ordenar melhor compromissos e atividades, além de nos prepararmos para a partida e para a eternidade. O temor e a ansiedade serão superados com a busca de uma fé esclarecida (teoria apresentada no livro Personality & social psychology review).

Alguns costumam visitar cemitérios. Ali, selamos nosso distanciamento das pessoas que se vão. Afinal, estamos vinculados ao tempo e ao espaço. Recordações tristes podem surgir, junto a outras que são até benfazejas. Flores e velas mostram-se supérfluas diante da eternidade.

Orações são inevitáveis em tais ocasiões. Olhar para dentro de nós mesmos, sobretudo diante do momento extremo, faz ruir toda arrogância e promove um movimento em direção ao transcendente. Mas orar por quem? Os que partiram fizeram suas escolhas. Se não tiveram oportunidades, isso lhes serviu de álibi na destinação eterna. Nós sim, ainda peregrinos, somos os beneficiados.

Orar faz muito bem à saúde. Mas para quem dirigimos? Será isso indiferente? Por que evitar o Deus supremo (aquele tão infinitamente grande que é capaz de nos ouvir em nossa insignificância) e nos apegarmos a seres menores, figuras humanas ou elementos da natureza? Um deus pequeno nos apequena.