Ser imprescindível


Por IRIÊ SALOMÃO DE CAMPOS Comunidade Espírita A Casa do Caminho

01/12/2012 às 07h00

O dramaturgo alemão Bertold Brecht disse certa vez: Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis. Não vamos, evidentemente, nos ocupar neste espaço gráfico em explorar a mente deste brilhante intelectual. Tomemos emprestadas suas palavras para uma curta reflexão sobre nós mesmos, lançando a pergunta: quanto temos lutado?

Lutamos para viver, para o diploma, para o início da carreira, para as vitórias profissionais, para as conquistas de bens, amores, casamento, filhos, escola, vestibular, início de carreira dos filhos, namoros, casamentos, netos, e assim segue a humanidade. Lutas, enfim, que, somadas, não passam de um dia, talvez um ano, fazendo-nos apenas bons.

A idade madura traz consigo a reflexão sobre o passado. Arrependimentos se acumulam nos abeirando da angústia. Corremos contra o tempo na busca da reparação e lutamos mais alguns anos apagando, com a borracha do presente, as falhas antigas, na esperança de nos tornarmos muito bons. E, de certa forma, conseguimos, vivendo com dignidade e retidão de caráter; filhos e netos cumprindo seus deveres, marcando suas vidas com respeito e dignidade nos mundos em que vivem. Mas ainda é pouco. Em certos momentos, um vazio se abre em nosso corpo emocional, uma incerteza na qual tudo parece tão certo, uma dúvida brota sei lá de onde, o frio espanta o calor e o mundinho sereno, e a zona de conforto estressa. Quem sou? A vida é só isso? Venci, e daí?

Descobrimos que, ao redor, existe o universo, e este é repleto de apelos, onde pedintes de todas as ordens mendigam socorro, cada qual esmolando uma necessidade específica. Começamos a descobrir que não estamos a sós, e nosso grupo familiar está além dos filhos e netos, já que nossos próximos também são de nossa responsabilidade. Retomamos a luta, uma nova visão se descortina gradativamente, e, na justa medida em que abrimos os olhos espirituais no entendimento universal do ser humano, passamos a enxergar misérias e necessidades que poucos veem e contra estes sofrimentos lutamos. Mesmo que muitas vezes não sejamos compreendidos por nossos pares, seguimos lutando, deixando as convenções sociais de lado, pois são apenas convenções, e nos tornamos convictos de que algo a mais devemos fazer.

Buscamos e encontramos no Cristianismo a resposta guia. Allan Kardec, em O evangelho segundo o espiritismo, destaca: Fora da caridade não há salvação, nesta máxima estão contidos os destinos do homem sobre a Terra e no céu. Sobre a Terra, porque, à sombra desse estandarte, eles viverão em paz; e no céu, porque aqueles que a tiverem praticado encontrarão graça diante do Senhor. Esta divisa é a flama celeste, coluna luminosa que guia os homens pelo deserto da vida, para conduzi-los à Terra da Promissão. Ela brilha no céu como auréola santa na fronte dos eleitos, e na Terra está gravada no coração daqueles a quem Jesus dirá: ‘Passai à direita, benditos de meu Pai’. Podes reconhecê-los pelo perfume de caridade que espargem ao seu redor. Assim vivendo, ao encerrar nosso ciclo terrestre e no retorno ao Pai, alguém de nós se recordará dizendo: este é imprescindível!