Filosofia e linguagem
Está no DNA da filosofia o procedimento crítico. O juízo crítico supõe discernimento (arte de julgar de forma clara) e adota um critério. Critério é um termo de origem grega que significa medida ou lei que nos permite, até certo ponto, distinguir falsidade e verdade, bem e mal. Exercer o juízo crítico implica julgar, e só pode julgar quem possui critério, isto é, a medida justa, supostamente verdadeira. E pode no-la dar, dentro de certos limites, a filosofia.
Logo, julgar com base numa medida criada pela imaginação ou pela fantasia é, simplesmente, um ato desvairado. Quem vive distraído olvida que, além das funções vitais (comer, beber e ter lazer), há uma essencial, imprescindível: pensar. A televisão tem duas filhas nobres: a diversão e a preguiça mental. Lamentavelmente, o caminho de saída da inércia existencial – o bom livro – está desprestigiado.
Dizem que os olhos são janelas da alma. Esse fragmento popular parece coincidir bastante com a verdade. Àquela face humana cabisbaixa, semidestruída (feita de olhar sem brilho e sem determinação), segue-se um discurso (uma fala) anunciador de uma interioridade polida pelo medo e/ou pelo ódio. Trata-se de um ser agoniado, batido pelo sofrimento, morrendo de dentro para fora. Quem se dedica à filosofia sente-se, quase sempre, incomodado por esse tipo de comportamento, sobretudo quando aceito pacífica e tacitamente, porque nele constata a falta de amadurecimento do senso crítico. Essa maturidade só advém através dos caminhos abertos pela reflexão, característicos daquela sabedoria que predispõe o ser humano para decisões corajosas e atitudes eficientes reclamadas pelo cuidado e pela consideração de si mesmo.
A linguagem, que manifesta o pensamento, é espelho dos sentimentos. É reveladora, portanto, da interioridade. Quem está, por exemplo, amargurado, dificilmente conseguirá produzir uma fala livre desse sentimento, que inspire coragem e força de superação. A linguagem e o pensamento estão inseparavelmente ligados e interinfluenciam-se.
Seria muito útil lembrar aqui que sabedoria e sabor têm uma única e mesma origem etimológica. Derivam do vocábulo latino sapere. Significa que, quando se procura a verdade, ela só se encontra naquilo que tem sabor (gosto) de realização, de conquista, de caminho trilhado com satisfação, alegria e eficiência. Infelizmente, há aqueles que lutam contra si mesmos (fenômeno da autorrejeição), quando deveriam lutar em prol de si mesmos (ainda que por instinto de sobrevivência), evitando a autoflagelação e o vitimismo decorrentes da obtusidade pré-filosófica. A filosofia não é privilégio dos eruditos, dos pesquisadores e dos catedráticos, mas está ao alcance de qualquer ser humano (por natureza, racional) desde que aceite e adote a sábia decisão de fazer sempre uma coisa simples: pensar.
Aquele que pensa é quem põe, com firmeza, os alicerces e adquire os pressupostos de uma conduta aberta, sólida, tranquila e veraz. Isso é mais belo que extasiar-se, num fim de tarde, contemplando uma maravilhosa panapaná.










