TRAVESSIA SEGURA
Quando Fernando Collor de Mello foi apeado do poder, criou-se uma grande expectativa para os próximos dois anos. Afinal, o país vivia uma democracia recente e havia o temor da volta do regime de exceção. Já distanciado do presidente, de quem divergiu já nas primeiras ações na política econômica, Itamar Franco tomou posse com o compromisso de recolocar o Governo nos trilhos. Em dois anos, mudou a história do país, tornando-se a ponte que hoje garante um Brasil estável e bem mais justo. Nos depoimentos colhidos ontem, veio o reconhecimento tardio de sua importância no processo político nacional. Além da sua postura ética, sua visão de futuro é detectável nos tempos de hoje.
O Plano Real, talvez o maior momento de sua administração, não foi o único gesto. O ex-presidente Lula, mesmo tardiamente, reconheceu seus feitos. Em nota, disse: No seu Governo implementou o Plano Real, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea) e engajou o Governo federal no combate à fome, com o apoio da Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida, junto ao sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. A contribuição de Itamar Franco foi fundamental para a construção coletiva de um país democrático, mais justo e sem pobreza.
Prefeito de Juiz de Fora por dois mandatos, senador da República em três ocasiões, governador de Minas e embaixador em Portugal, na Itália e na OEA, Itamar Franco tornou-se uma referência que fará falta na vida política. Como lembrou o senador Cristovam Buarque ontem, quando o ex-presidente falava, o Senado parava para ouvi-lo, fato raro numa casa de tanta articulação em função de sua autoridade política e moral. Era um opositor que o Governo temia, não por agir visceralmente, mas por pontuar a crítica, mostrar o erro e apontar a solução. Em cinco meses da atual legislatura, voltou a fazer história.
Seu legado deve ser o norte das próximas gerações, pois mostrou que é possível fazer política sem dela tirar proveito pessoal. O Brasil sempre foi sua causa: nacionalista assumido, sempre enfatizava o papel que o país poderia desempenhar no contexto internacional. Foi intransigente com a corrupção e rejeitava a delação vazia. Quando acusaram seu ministro de ilegalidade, o afastou e o reincorporou depois de provada a sua inocência. Quando recebeu o então senador Antônio Carlos Magalhães com um de seus famosos dossiês, saiu do silêncio da audiência privada e chamou a imprensa. Foram muitos os gestos que só agora o país se lembra depois de deliberadamente esquecer.











