Preservar vidas não é custo e não tem preço
Ninguém esperava tamanha concentração de chuva, em tão pouco tempo, muito superior ao previsto para um mês inteiro em Juiz de Fora.
Muito menos que o temporal deixasse um rastro de tanta destruição e mortes. Mais de 60 vidas perdidas só na cidade.
A força das águas é inevitável e, até certo ponto, imprevisível. Não há como antecipar uma tragédia, mas é preciso investir na sua prevenção. Tirar do papel e inserir no orçamento investimentos robustos em políticas públicas que visem a minimizar danos, mas, principalmente, preservar vidas.
Como a Tribuna noticiou ao longo da semana passada, de acordo com a Lei Orçamentária Anual, foram destinados R$ 85,6 mil para o Plano de Contingência Municipal para resposta a desastres ocasionados pelas chuvas no ano passado. A cifra significa redução de 14% ante 2023, que foi de R$ 100 mil. Em 2024, recuou 10% em relação ao ano anterior, chegando a R$ 90 mil. Além disso, R$ 600 milhões em recursos federais do PAC para obras de macrodrenagem da bacia de córregos não chegaram a tempo de evitar – ou minimizar – a tragédia na cidade.
No plano de contingência, são definidas as responsabilidades para atender a uma emergência, como a que Juiz de Fora enfrenta. Entre os objetivos estão treinar, organizar, orientar, facilitar, agilizar e uniformizar ações necessárias às respostas de controle e combate às “ocorrências anormais”. Já a execução dos projetos relacionados ao PAC, que poderia evitar inundações em vários pontos da cidade, esbarra em trâmites burocráticos e morosos.
Não é segredo que as “ocorrências anormais” tendem a se tornar cada vez mais frequentes, mas Juiz de Fora não estava preparada para isso, inclusive financeiramente. Para ver um pai escavando a terra, com as próprias mãos, para tentar encontrar a filha soterrada. Para ver famílias inteiras enterradas. Para ver tantas crianças perdendo a vida tão precocemente.
Não há como tirar uma lição mediante tanta dor. Mas é possível – e preciso – mudar o olhar e a rota, antes que, mais uma vez, seja tarde demais.