O mapa de Juiz de Fora está sendo refeito
“A cidade sofrerá durante muito tempo ainda todo o impacto da tragédia”
Os últimos dias de fevereiro de 2026 nos fizeram testemunhar a maior tragédia da história de Juiz de Fora. Até então, o momento mais sinistro acontecera em 07 de março de 1944, quando 14 operários (sendo 11 mulheres) da Fábrica de Juiz de Fora (hoje, IMBEL), em Benfica, morreram depois de uma explosão num de seus galpões de produção de munições.
Desta vez, as fortes chuvas que caíram por toda a cidade fizeram com que 65 pessoas perdessem suas vidas sob escombros de construções e quedas de barrancos. Uma intensidade pluviométrica em curto tempo tão absurda que levou a inundações de boa parte das ruas da região central, ao transbordamento de córregos (como o Humaitá, Tapera, Independência, Matirumbide, São Pedro, Yung e outros) e do nosso principal rio: o Paraibuna. Arrisco falar que a enchente de 2026 foi maior que a do Natal de 1940. Naquele ano, o Paraibuna era mais estreito, raso e bem sinuoso em seu curso. O rio transbordou e suas águas chegaram até a Rua Santo Antônio. Mas, outro fator contribuiu, na ocasião, para as cheias: a descarga de parte da água acumulada na barragem João Penido. Ao contrário de 2026, em 1940 ninguém morreu e não sabemos sobre desabamentos de encostas no município. Também é preciso destacar que, em 1940, nosso território era bem mais permeável. Não havia tantas edificações nos morros e bem menos pavimentação asfáltica. A partir dali nosso rio sofreu inúmeras alterações em seu traçado. Alargamento da calha, retificações de Benfica até a Vila Ideal, aprofundamento do seu leito e, vez ou outra, vemos dragagens acontecendo na foz de algum córrego afluente.
Mas, a cidade cresceu de forma muito rápida. As áreas outrora verdes deram lugar a centenas de loteamentos. Seus morros estão sendo ocupados, ainda que de forma desordenada. As margens de córregos (e mesmo do Rio Paraibuna) receberam tantas edificações que impedem qualquer tipo de operação de draga. Não há espaço para o equipamento se movimentar. Num quarteirão onde, no passado, era possível fazer seu parcelamento para cerca de 20 construções unifamiliares, hoje, recebe duas ou mais torres de 20 andares para 400 famílias. E pasmem: durante o período em que se constrói esse tipo de condomínio nenhuma escola, nenhum posto de saúde, nenhuma área de lazer, nenhuma creche está sendo feita nas imediações da grande obra. Nem sei se ocorre inclusão de algum novo ônibus no transporte coletivo do lugar. Para que serve a avaliação de impacto de vizinhança!? O poder público também carrega parte de culpa quando faz escadões, e autoriza ligações de água e coleta de esgoto, e de fornecimento de energia elétrica para as construções em áreas de risco geológico. Permitir esses serviços é uma forma de admitir que o lugar é habitável.
A cidade sofrerá durante muito tempo ainda todo o impacto da tragédia. E como consequência seu mapa precisará ser refeito. Remoções de grandes ocupações em lugares impróprios para moradias, outros arruamentos mais seguros em substituição àqueles que vêm provando serem perigosos e um ousado plano para tornar nossos bairros mais permeáveis, com o estímulo à criação do que se conhece como “florestas de bolso” e “cidade esponja”. A execução de um plano municipal para o enfrentamento às mudanças climáticas já está passando da hora. Tudo isso é para anteontem! Esperar é autorizar outro colapso em nossa Juiz de Fora!
*Vanderlei Tomaz é escritor
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