O Cristo Redentor

“É necessário, sim, reconstruir a cidade. Mas reconstruir não significa apenas reparar estruturas físicas”


Por Igreja em Marcha - Grupo de Leigos Católicos

27/03/2026 às 08h00

A Paixão de Cristo não pode ser reduzida a um símbolo distante, nem a um consolo diante da dor. Em Jesus Cristo, contemplamos um Deus que não foge do sofrimento humano, mas o atravessa com verdade, assumindo as feridas do mundo sem anestesiá-las. Sua cruz não romantiza a dor: ela a denuncia, a expõe e a transforma em um grito por justiça e por cuidado da vida humana e da Casa Comum, nas suas mais diversas dimensões!

Jesus nasceu sem abrigo, cresceu no desterro, viveu nas periferias, fez-se classe numa carpintaria, acolheu os vulneráveis, visitou as casas dos mais pobres, levou cuidado e convocou a todos para uma grande transformação guiada pelo amor ao próximo. “Ele veio morar entre nós”! (Jo 1, 14).

Diante do drama habitacional, vivido por pessoas do mundo todo, mas que em Juiz de Fora foi intensificado pela calamidade das chuvas de fevereiro, que expôs com dureza a vulnerabilidade de tantas famílias, a Campanha da Fraternidade de 2026 nos interpela a olhar para a moradia não apenas como uma necessidade material, mas como expressão concreta da dignidade humana e do cuidado com a vida.

À luz de seu tema e lema, somos chamados a reconhecer que a casa é lugar de proteção, de pertencimento e de esperança, e que negar esse direito é ferir o próprio sentido da fraternidade cristã. Mais do que reconstruir estruturas físicas, este tempo exige reconstruir vínculos, fortalecer a solidariedade e assumir, como Igreja em saída, o compromisso de transformar a realidade, para que ninguém seja deixado à margem — nem da cidade, nem do amor de Deus.

Há famílias que perderam tudo na cidade e na região. Há histórias interrompidas. Há um sofrimento que não pode ser apressado nem silenciado. O luto precisa ser respeitado. A dor precisa ser acolhida com seriedade. E a fé cristã, quando autêntica, não se limita a oferecer consolo abstrato. Ela exige responsabilidade concreta. O cuidado com os mais fragilizados não pode ser terceirizado, nem reduzido a gestos pontuais. Ele precisa se tornar compromisso contínuo, ético e coletivo. Assim como o cuidado por nossa Casa Comum que clama por meio de eventos extremos por toda parte!

É necessário, sim, reconstruir a cidade. Mas reconstruir não significa apenas reparar estruturas físicas. Reconstruir Juiz de Fora é enfrentar vulnerabilidades expostas pelas águas, rever prioridades, cobrar responsabilidade pública, acompanhar seus esforços em enfrentar e prevenir tais situações e fortalecer redes de solidariedade que não desapareçam quando as manchetes mudarem. A tragédia precisa ser compreendida tanto pelas condições históricas e geográficas da cidade, mas sobretudo pelo impacto das mudanças climáticas que são globais e frutos de decisões econômicas e políticas que muitas vezes negam sua dimensão!

Como no alto do Morro do Cristo Redentor, que vigia a cidade e nos recorda que a cruz não é o fim, mas passagem, também Juiz de Fora é chamada a se reerguer. O Cristo Redentor não representa as quedas do caminho, nem a dor da Paixão, mas a esperança que nasce depois delas. É a última estação da Via Crucis: a vitória da Vida sobre o sofrimento. Que essa certeza nos mobilize e nos sustente para, juntos, reconstruirmos não apenas casas e ruas, mas a confiança, a solidariedade e o futuro da nossa cidade!

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