Tragédia anunciada 2 – A chuva é o gatilho disparador
“E eis que o desastre ambiental (previsto) aconteceu”

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Adicionar Tribuna de MinasNo dia 19 de dezembro de 2002, esta Tribuna publicava artigo de minha autoria sobre as mortes no Bairro Graminha (Zona Leste) devido a movimentos de massa. O título era “Tragédia Anunciada”. No texto, expus minha indignação, pois as regiões de riscos elevados a esse tipo de evento já eram conhecidas. E por mim mapeadas! Quero destacar uma frase do artigo, infelizmente visionária, mas com base na ciência cindínica: “outros desastres ainda vão ocorrer; e sabemos onde”.
E eis que o desastre ambiental (previsto) aconteceu, quase um quarto de século depois daquele citado e em um tempo geológico muito curto. E classificamos a chuva como um gatilho disparador (e não a causa básica!), já que a vulnerabilidade do substrato físico (a verdadeira responsável pelo evento) é por demais conhecida: relevo acentuado, rochas extremamente fraturadas e falhadas, solos frágeis, vegetação escassa. Além disso, não podemos esquecer das ocupações irregulares: lixo nas ruas, falta de educação ambiental, contenções inexistentes e outros fatores, consequências de um urbanismo sem planejamento e controle, na verdade, uma vergonha nacional.
A Região Leste, como esperado, foi a mais atingida, concentrando as fatalidades registradas, conforme divulgado pela imprensa. Temos vítimas fatais, centenas de desaparecidos e desabrigados. Além dos problemas na área, o escorregamento ocorrido no Morro do Cristo, atingindo o Bairro Paineiras em seu sopé, confirma a extrema fragilidade geológica (conhecida!) daquele maciço rochoso, o qual felizmente não soltou os vários blocos de rocha mapeados como instáveis e presentes em seu talude altamente declivoso. E lembremos que as esparsas contenções estruturais daquela encosta já têm mais de 50 anos!
O momento é de preservar vidas e procurar por desaparecidos e sobreviventes, além de um monumental trabalho de limpeza que deverá ser efetuado. Não querendo escrever em futuro próximo um artigo intitulado “Tragédia Anunciada 3”, aponto para a urgência de ações amplas e coletivas, seja no âmbito da educação formal, nas intervenções estruturais, conscientização sobre risco e fiscalização efetiva. Uma tarefa hercúlea que, se tivesse tido início no começo deste século, talvez amenizaria a assustadora situação de hoje. Mas na época (em 2002) o que me marcou foi o desprezo da governança local pelas mortes e ocorrências que poderiam ter sido evitadas. Exatamente assim como hoje.
*Geraldo César Rocha é geólogo, especialista em Riscos Ambientais e professor da UFJF









