O que fizeram com o Pierrô e a Colombina
“Hoje, o Pierrô e a Colombina fazem parte do passado. O Arlequim não chora mais pela Colombina”
“Fui porta-estandarte, não sei mais dançar/Eu modéstia parte nasci pra sambar/Eu sou tão menina/Meu tempo passou/ Eu sou Colombina/ E eu sou o Pierrô.” (Chico Buarque)
O carnaval continua sendo a nossa grande festa popular. Relembrando os carnavais do passado nas pequenas cidades, não podemos esquecer que as pessoas dançavam e tinham o costume de jogar lança perfume, confetes e serpentinas. “Confete pedacinhos coloridos de saudades.” ( David Nasser e Jota Junior)
As famílias saiam de suas casas e se reuniam nas ruas voltadas para as festividades carnavalescas. Havia muita tranquilidade, paz e reinava a alegria. As fantasias eram lindas, e o brilho dos paetês e lantejoulas davam um toque mágico. O povo se encantava e se divertia participando da grande festa. O objetivo era pular, divertir, dançar, cantar e aproveitar cada minuto antes que o reinado do Rei Momo terminasse na quarta-feira.
Quando a escola de samba entrava na avenida, linda e majestosa na sua simplicidade, a plateia vibrava e ovacionava… A bateria com sua cadência contagiava as pessoas que assistiam o desfile e as que acompanhavam segurando a corda de proteção. A coreografia do Mestre Sala e da Porta Bandeira chamava a atenção. Os carros alegóricos encantavam com sua beleza. A ala das baianas sempre foi o ponto forte. Sem falar nos blocos carnavalescos.
Era época das matinês infantis e dos bailes noturnos. Foi o período do carnaval de salão. Nos bailes carnavalescos, os foliões iam fantasiados. Chico Buarque retratou muito bem esse momento na música Noite dos Mascarados: “ Quem é você/ Advinha se gosta de mim/ hoje os dois mascarados/ procuram os seus namorados/ perguntando assim.” Ao som da banda, as pessoas pulavam até o dia amanhecer.
Hoje, o Pierrô e a Colombina fazem parte do passado. O Arlequim não chora mais pela Colombina. “Fui porta-estandarte, não sei mais dançar/Eu modéstia parte nasci pra sambar/Eu sou tão menina. Meu tempo passou/ Eu sou Colombina. Eu sou o Pierrô.” (Chico Buarque)
A vida é assim. Cada época tem seus valores e costumes. É o caminhar irreversível da história.
Atualmente, vivemos num mundo muito tumultuado. Correria, barulho, violência, drogas, injustiças sociais, preconceitos, estresse. Na realidade, um povo mais sofrido, e a tranquilidade não é mesma de antes. O carnaval continua a ser a festa muito esperada. O seu encanto e beleza continuam. Mas os foliões não o procuram com a mesma tranquilidade e alegria de antes e sim, salvo exceções, como uma válvula de escape, uma ilusão, como se fosse um alivio para os problemas mascarando a realidade. É também importante refletir sobre os versos do nosso “Poetinha” Vinicius de Moraes: “A felicidade do pobre/ parece a grande ilusão do carnaval/ a gente trabalha o ano inteiro/ por um momento de sonho/ pra fazer a fantasia/ de rei ou de pirata, ou jardineiro/ e tudo se acaba na quarta-feira.”
Na quarta-feira, o período em que reinou o mundo da fantasia termina, e a realidade se impõe até o próximo carnaval.
“Certezas e esperanças pra trocar/Por dores e tristezas que bem sei/Um dia ainda vão findar/Um dia que vem vindo/E que eu vivo pra cantar. Na Avenida girando, estandarte na mão pra anunciar.” (Porta Estandarte-Geraldo Vandré)
*Lenira Rocha Peres Mercadante é psicóloga