Dia Mundial do Livro: ler ainda importa

“Ler, hoje, é quase um gesto de desobediência”


Por Cândice Broglio Gasperin*

19/04/2026 às 08h00

“Por que você ainda lê livros?”, escutei esta pergunta na semana passada e passei alguns dias refletindo sobre o seu significado. Por que, com tantos estímulos, o leitor prefere comprar um livro que o obriga a estar atento a cada linha em vez de sentar no sofá e rolar o feed das redes sociais ou assistir a alguma versão adaptada para a televisão depois de um longo dia de trabalho?

Ler, hoje, é quase um gesto de desobediência. Abrir uma página é tentar escapar de um mundo estressante, que não para e exige que sejamos multitarefas, sempre correndo, sempre respondendo. Nada pode esperar.

Lembro que ganhei meu primeiro livro assim que comecei a ler, aos cinco anos de idade. Lúcia já vou indo, um clássico da literatura infantil que conta a história de uma lesma que chegava tarde às festas em que era convidada. Fui estimulada desde cedo a manusear livros, ler histórias em voz alta e até a escrever resumos para discutir com meus pais.

Os livros ensinam a fazer perguntas, a refletir e permanecer nelas o tempo que for necessário, sem cobrança. Foi dessa relação com a leitura que resolvi também ser escritora. Eu queria tentar oferecer aos leitores um espaço de reflexão, de pausa e reconexão com a própria essência, e recentemente publiquei meu primeiro livro.

Estar do outro lado, como autora, é um desafio em cada linha escrita: encontrar palavras e histórias que acolham e façam o leitor parar e sentir. Em meio a esse cenário, datas como o Dia Mundial do Livro (23/04) deixam de ser apenas simbólicas e se tornam um convite real à pausa. Ler sem ter o celular por perto e sem se distrair com cada alerta de mensagem. Ler e se deixar levar pela história, pelas palavras do autor.

O livro acolhe e resgata no silêncio de suas páginas. Envolve a imaginação ativa, estimula o cérebro e amplia a capacidade de concentração, algo cada vez mais raro. Segundo pesquisa da Universidade de Sussex, na Inglaterra, a leitura pode reduzir o estresse em até 68%. Talvez a pergunta não seja porque você ainda lê, como se este hábito precisasse de justificativa e de aprovação. Ler para subir fotos nas redes sociais ou para cumprir uma meta. A pergunta certa pode ser outra: o que perdemos quando deixamos de ler?

Perdemos mais do que um hábito individual. Perdemos repertório, senso crítico, empatia e a capacidade de enxergar o mundo sob outras lentes. Ler não é apenas um refúgio: é uma forma de permanecer atento, consciente e humano. E é isso que ainda nos permite transformar o mundo.

*Cândice Broglio Gasperin é jornalista

 

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